- Vou embora.
- Como assim?
- Isso mesmo. Até qualquer dia.
Ela se levantou, com um misto de raiva e tristeza. Já ia caminhando em direção à porta do apartamento, quando parou de costas para ele. Que nada fez além de olhá-la, e esperar. Porque ele sabia o que ela ia pedir.
- As chaves, Mark. Por favor.
- Eu não posso te dar enquanto a gente não conversar. Você sabe, isso não é justo comigo.
- E desde quando você tem noção do que é justo?
- Acho que se você no mínimo confiasse um pouco em mim, e tivesse idéia do que tem acontecido, não falaria isso.
- Explique-se então.
Ele ficou em silêncio, e fitou longamente os olhos dela. Esse "longamente" pode ter sido por um minuto, ou dez segundos, ou um único segundo. Mas foi um momento. E um momento dos longos; Mark respirando longa e pesadamente, enquanto sua namorada apenas ficava quieta. Com aquele olhar desapontado que ela sempre fazia, e que o destruía em mil pedaços. Bem, ela tinha um tanto de razão para ficar desapontada com ele, na maioria das vezes. Mas naquela vez, ele tinha certeza que não. Não havia razão ou motivo algum.
- Então é isso? De novo você vai ficar aí, sem me dizer nada?
- Não dá, sabe... você fica aí fazendo isso comigo, e...
- Abra a porta pra eu sair, pelo menos.
Mark olhou para o rádio-relógio no criado-mudo, ao lado do sofá-cama. Quatro e vinte da tarde. Olhou para ela, ainda de pé ao lado da porta, com a bolsa a tiracolo. Tirou o molho de chaves do bolso, e jogou.
- Deixa encostado. E lá embaixo o porteiro abre pra você.
- Muito obrigada.
- Tchau, Alice.
Ela saiu, e o barulho da porta batendo coincidiu com o final do cd que estava tocando. E ele sabia que ela voltaria alguma hora. Ela sempre voltava, ele sempre voltava. Os dois costumavam ouvir várias vezes de conhecidos que tinham nascido um para o outro, e que tinham uma total harmonia entre si. E ambos acreditaram nisso, mesmo incoscientemente, por todos esses longos oito meses. Longos, mas que passaram voando. Talvez por esse motivo Mark não ficou nem um pouco surpreso quando ela voltou, abriu a porta, e parou ali o encarando.
- Mas já? - ele disse, num tom do tipo fingindo não se importar.
- O porteiro deve ter saído pra fazer alguma coisa.
- Sei...
- Mentira. É, eu voltei pra gente terminar de conversar. Porque agora eu que quero dizer algumas coisas.
- Sente-se então. - Mark disse, enquanto acendia um cigarro e estendia um para ela. E a história só estava começando.
segunda-feira, 31 de agosto de 2009
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