1. Como se começa uma jornada
I.
“O homem de preto fugia pelo deserto e o pistoleiro ia atrás”. E assim ele fechou o livro. Seis semanas, para tudo terminar como tinha começado. Novamente (lembrava disso há pelo menos seis livros) ouviu a voz de seu mestre; “o propósito da educação formal é fazer você ter um contato com obras com as quais não teria se não fosse essa educação blablabla…”, e aí começou a pensar no propósito daquelas três mil e quinhentas páginas, e porque Canon fazia tanta questão dele saber daquilo. Aliás o que havia para se saber ali? Não era apenas uma história sobre um pistoleiro e seus amigos e sua obsessão?
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Algum tempo depois ele saberia que histórias são mais do que histórias. Passaram-se meses desde que terminou aquele livro, e alguma coisa sobre o tomo ainda o incomodava. Mas seu treinamento finalmente acabara. Seu olhar ia do medalhão azul sobre sua mesa para a janela através da qual se via a praia. O mar estava calmo, como que cansado. O céu cinzento o lembrava de dias estranhos em que o tempo parecia devagar. O aroma salgado que o vento trazia evocava noites e fogueiras e coisas que não mais aconteciam.
E aquela cena em frente à janela… havia se passado um bom tempo desde que aquela cena não se repetia. Mas o medalhão continuava chamando sua atenção. Era o que tinha conquistado, um bom tempo atrás, no último dia em que se sentou à janela. A herança de seu clã. O que o tornava um “Filho da Água”. Supostamente aquilo lhe implicava um dever, e supostamente também que eventualmente seria algo mais que um filho.
E Mark refletia sobre o que significavam deveres e se o sentido daquilo estaria na educação formal que ele negligenciou.
Julgava que aquelas coisas que aprendeu longe de seus mestres lhe faziam mais sentido. Tinham o destacado de seus pares.
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E ali, onde começava sua (segunda) caminhada, sentiu a falta de seus pares. Todos mais dedicados àquilo do que ele, e, quem sabe, não era por esse motivo que Mark era o último sobrevivente de sua terra? Seria ele em algum momento mais do que um filho da água?
Era o motivo de estar caminhando há exatos seis minutos. Sua janela tinha ficado para trás uma vez. Sua terra ficava para trás pela segunda vez. A água, aquele lugar, aquele elemento, sua origem, por enquanto estava a seu alcance. Caminhava rumo ao norte.
Em algum lugar (que se provaria mais longe do que Mark nesse momento pensava) estava um chalé feito de conchas encrustado no pico de uma falésia. Havia um chalé de conchas em algum livro que Canon tinha o feito ler. Escreveu algo que não lembrava bem sobre isso em uma avaliação.
“Nunca foram importantes”. Em desafio a isso, quando se sentou no final daquele dia pegou seu brinquedinho e leu alguma coisa diferente. Aquelas banalidades que o interessavam e alienavam do chalé. E supostamente o chalé era só o começo de algo maior.
Havia que seguir indiferente. “Ka”, aquela palavra do pistoleiro mais uma vez se fez lembrar.
Olhou fixamente para o medalhão. Continha mais história do que seria possível colocar em páginas ou telas. A lua por um instante ficou azul, e Mark se lembrou onde estava a luz.
Indiferente a ele ou a seu caminho, o mar estava calmo.
II.
Por mais alguns seis dias ele continuou, pescando por aí. Conseguia atrair peixes (não tinha só lido livros durante seu treinamento afinal), conseguia transpor pedras que beiravam precipícios. O terreno naquele lugar não era amigável, ou seja, Mark não encontrou outros seres falantes pelo caminho. Conversava consigo mesmo e com os livros que trazia em seu brinquedinho e com as notícias do mundo distante que cada vez estavam mais distantes uma da anterior.
Conversava com aqueles vislumbres do passado que se pareciam cada vez mais passados. Pensava sobre como alguém um dia tinha que destruir um anel e foi até o fim para isso. Pensava sobre como os retirantes andavam pelo deserto da caatinga (o que seria caatinga?) em busca de um bom lugar. E também sobre o menino que sobreviveu, e seu olhar voltou para o pistoleiro que buscava uma torre, assim como ele buscava um chalé, e o que seria aquele chalé?
Julgou-se inútil até encontrá-lo de fato. As conchas reluziram no crepúsculo. Seis da tarde.
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Como que esperasse Mark, um velho olhava o mar no alto da falésia.
Esse velho usava trajes que sugeriam que ele não via ninguém há algum tempo. E suas próprias feições sugeriam o mar que ele observava, implacável, e seu poder de erosão sobre o lugar, como água mole em pedra dura tanto bate até que fura. E afinal areia um dia foi pedra.
- Salve, Filho da Água - o ancião virou e lhe gritou antes que pensasse em qualquer coisa.
Continuou andando pelo pico rochoso, - a areia estava na sua, lá embaixo - se agarrando a seus pertences, o vento fustigava, e de qualquer forma Mark não responderia antes de se aproximar. E especialmente a um ancião, e o fato de saber seu nome antecipava um frio na barriga maior ainda.
E meio que assim o filho da água se sentiria por boa parte dos diálogos em sua jornada, afinal todos eram anciãos naquele mundo. Seus pares tinham seguido adiante.
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- Salve, ancião. Mark, da Praia da Lua Azul, Filho da Água.
Os olhos do ancião eram mais azuis do que o azul em seu medalhão. Refletiu por um meio segundo se água é azul ou transparente.
- O vento me anunciou esse momento, jovem. Temos um assunto a tratar.
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A confabulação entre Mark e o senhor Shell durou algumas horas. Aquele sofá em frente a uma lareira era mais confortável do que seria seu lar, o que não o faria melhor que o próprio lar. Uma lareira não substituía uma janela. Se levantaram, observaram o vento lá fora.
E é possível observar uma corrente de ar?
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Por momentos o filho da água sentia como se aquelas palavras corressem através dele, e por mais que oferecesse resistência, elas continuavam, como acontece com o leito de um rio.
Ao mesmo tempo se lembrou do lutador de um tempo distante (uma história vinda de seu brinquedinho), que como água também corria por lugares sem a menor resistência.
Lhe ocorreu que não era filho da água sem razão. E que se o destino de sua vida dependesse singularmente de um velho…
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Quando deixou aquele chalé no dia seguinte levou consigo um mapa. O mapa já era conhecido, seu brinquedinho tinha lhe mostrado. Não sabia do caminho que - supostamente - deveria percorrer.
O ancião não tinha visto o brinquedinho e nem devia. Aquilo era uma relíquia de um outro tempo, encontrada por acaso, e que estava fora dos limites de sua educação. Pois como um predestinado, um escolhido, (um pistoleiro?), um filho da água, último de seu clã, receberia a educação de seus ancestrais.
Não tinha como dizer o que aquele pequeno mecanismo - tão eletrônico que mágico - havia o desviado de seu destino. Resolveu seguir o traço do velho Shell pelo menos como um começo para um caminho que chegaria em algum lugar.
Ele não queria nem saber do lugar, queria aproveitar o caminho. Se isso fosse possível naquele mundo que seguia adiante.
“Felicidade só é real quando compartilhada”, uma outra obra ecoou em sua cabeça. Precisava de companhia se quisesse aproveitar o caminho. Não tardaria.
III.
O mapa do ancião lhe indicava que deveria sair da praia. Seguir no rumo leste até encontrar a praia novamente. E velejar adiante até uma ilha. Nessa ilha encontraria a próxima pista para sua jornada.
Aquilo não fazia sentido ainda, porque promessas vagas que envolviam mais poder (?) e um crescimento pessoal (?) e a salvação de sua terra - o que aí já envolvia a palavra supostamente - e ele não se sentia tanto a vontade perto de coisas tão decisivas assim.
Afinal, se não fosse o filho da água, seria o que naquela vida?
“E se lembrou de quando era uma criança, e de tudo que vivera até ali, e decidiu entrar de vez naquela dança”, e os ecos de tempos passados - presentes? - continuavam.
Tinha mais perguntas do que respostas. Demoraria a perceber que respostas são caras, que nunca respondem satisfatoriamente a pergunta, e que ao invés de responder perguntam mais.
IV.
Alguns seis dias depois de deixar o chalé, encontrou um resto de fogueira na mata. Aquele arabesco no formato das cinzas lhe lembrou uma antiga lição.
Ele não tinha um único mestre, assim como não era só a água que deixava filhos. Constelações também não eram algo eterno no céu, assim como cada onda era uma surfada diferente de todas as outras.
Mark se lembrou do quarto número. O chamado “ene”. Que garantia que nenhuma história fosse a primeira ou última.
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Aquela marca na fogueira remetia a um Filho do Éter.
O jovem tinha aprendido que haviam quatro elementos, e além desses quatro mais quatro que correspondiam ao giro da roda, e outros quatro que supostamente seriam esse mesmo giro ao contrário, e depois de tudo isso havia o Éter.
O que manteria a roda girando.
Era tão preto quanto branco, era tão todos os elementos quanto nenhum.
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O brinquedinho não tinha nada a dizer sobre o éter.
Demoraria a perceber mas ele se tornaria menos confiável a cada dia que passaria. Afinal estava mais longe da conexão e tudo demorava mais.
E isso tinha mais a ver com o Éter do que com o brinquedinho, e assim seis dias se passaram, quando o filho daquilo que não seria encontrado se mostrou.
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Mark - por conta da influência daqueles livros ditos “não-leia” - sempre pensou que se apaixonaria à primeira vista. E quando a Filha do Éter ali apareceu, (sua surpresa pois não esperava uma menina), e sorte dele que não esperava uma menina pois ali apareceu uma mulher, e novamente em um eco Mark se lembrou de outra frase da educação formal, “Kids, and that’s just how I met your mother”.
Pois nada até o fim do caminho seria tão marcante quanto aqueles olhos castanhos.
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Mark era diferente. Pois ao invés de seus conterrâneos da praia não tinha os olhos azuis. Castanhos. E Vick tinha olhos mais castanhos que os seus.
Tão castanhos quanto verdes. Tão castanhos quanto Mel. Ecoavam os olhos de Vivian. “Vivian não existe, é apenas um personagem em um livro”.
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Melissa seria aquele amor da infância. Aquela coisa a qual tudo que vinha depois sempre evocaria. Seus olhos eram diferente de tudo mas os olhos da filha do éter desafiavam tais parâmetros. Sentia-se arrastado, ainda mais quando ela lhe perguntou.
- Está tudo bem com você?
Olhou para aquele sinal de fogueira, olhou de novo para ela. Pela primeira vez desde seu tempo - de contestador radical - não tinha palavras.
Culpa do olho mais castanho que castanho ou do sorriso mais sorrido que qualquer sorriso? Ou culpa dele mesmo que se atraía por tais…. raridades?
V.
- Você vem sempre aqui? - essa pergunta fazia tanto sentido quanto tudo aquilo que tinha estudado.
Vick apenas olhou e sorriu. Mark encarou aqueles olhos novamente. Perdia-se naquilo como uma criança em um parque - e o que eram parques, para aquele jovem crescido na praia e que não tinha a mínima idéia do que seria uma montanha-russa? O que ele mais queria naquele momento era que os ecos parassem e ele pudesse dedicar atenção àquilo que acontecia - a tal realidade…
- Venho às vezes - disse como uma banalidade. “Banalidade”...
Impossível não contemplar aqueles olhos que o lembravam do grave inverno. Que na praia significavam tanto quanto ver o outono, ou “teus olhos, não quero dormir sem teus olhos”. Não haviam olhos ou sinais para mantê-lo perto do tempo. Inseguro de si como sempre respondeu,
- E aí? Algo aqui que te faça voltar? - novamente as palavras saíam dele como se ensaiadas.
- Sim. A fogueira da água.
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Água quando fria virava gelo. Quando muito fria. E quando supostamente congelaria. Gelo, água mais ar. Sorte de Mark que não passava (nem perto) disso. E não tinha a mínima idéia do que o Éter aguardava, como se Éter fosse algo que existisse, e Mark que era uma pessoa - achava que era uma pessoa literal - queria que aquilo fizesse algum sentido.
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- Se acalme, querido.
Desafiando tudo que tinha passado, se acalmou. Mesmo sem nenhum motivo além daquela voz.
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Imaginou o que de fato seria “querido”, e ainda o que seria ser querido por alguém, como a própria palavra dizia sobre si. Poderia uma palavra se chamar de si?
Como o décimo terceiro elemento éter nada teria a dizer de si tampouco qualquer palavra poderia.
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Por algum motivo Vick gostou daquele garoto perdido desde sempre, e poderia ser tanto sorriso quanto olhar quanto a forma como se mexe, - “it’s just the way you move” - quanto qualquer detalhe, como aquilo que ela aprendeu; “pessoas se apaixonam por detalhes, e o resto é uma conversa”, aquilo era pra ela tão empírico quanto intuitivo. O éter não ensina nada. Afinal o éter não é nada além de o espaço entre as coisas. Outros doze elementos.
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Lições de física/química (pós?-)moderna:
(coisa que nem Mark nem Vick tiveram)
Átomos têm núcleo e uns elétrons. O espaço entre órbitas de elétrons e o núcleo é gigantesco. A ponto de ser chamado de vazio. Ou seja átomos são vazios porque há muito espaço neles. Então, a realidade é um conjunto de vazios, ou esses vazios comportam (no sentido de comportas - como Titanic) a realidade?
Não bastam os ecos da educação formal, da informal vinda do brinquedinho e da incerta vinda do éter (o vazio?). Repetem. Repetem-se. Não se sabe a fonte mas a citação não escapa.
“An empty canvas holds infinite possibilites”.
O nome disso é Glimmervoid. Vácuo tremeluzente. Mark olha para Vick vendo seu primeiro vácuo tremeluzente.
Vick é filha do éter, mas vê ondas através dele, como se estivesse procurando por movimento e não apenas vazio. Porque o mar nunca parou de se movimentar.
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- Estou calmo. Eu acho.
Aprumou o olho direito - saberemos porque?
- Tenho certeza.
Através daquele olhar enigmático/hipnótico havia tanta margem para a imaginação de Mark, que de fato algo preencheu seu “empty canvas” e finalmente houve alguma perspectiva de viagem além do seguir no rumo leste até encontrar a praia novamente.
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Conversaram como tinham que conversar. Afinal a vida é a arte do encontro embora hajam tantos desencontros pela vida, ambos aprenderam isso, e se encontraram de fato. Sorte deles que tinham um ao outro. E tiveram por uma boa parte do caminho.
Melhor que ter uma vida boa é dividi-la com alguém?
2. Sobre as coisas que aparecem no meio do caminho
Eventualmente Mark se pegou longe de Vick, e sentiu que podia pensar sobre o que quisesse. Porque ela podia ler quaisquer tipos de pensamentos. Porque pensar sem que ela visse parecia mais livre, ou algo assim… parecia que ele podia pensar de verdade, parecia que naquele momento ele era verdedairamente ele e não alguma construção, e parecia que enfim após tanto tempo ele era si mesmo.
Pensou sobre os momentos enquanto lia e esperava por seu “futuro”, e supostamente pareceu-lhe que a cada momento deixava de ser si mesmo; mais a cada iteração.
E nada daquilo estava sob seu controle.
Vick permanecia perplexa.
Mark questionou qual seria o papel dela ali,
se continuaria pesando mais e mais e mais…
Sorriu. Diferente do que pensava, sorrir não adianta.
É impossível viver só sorrindo.
Vick olhou por alguns mais momentos, e foi embora.
I.
Victoria experimentou uma miscelânea que não julgava real.
Viveu toda a vida em uma pequena bela história, então não percebeu aquilo que mudava conforme ela descendia rumo ao éter.
A graça é que ela não percebeu tal espiral. Dias, meses, anos. Passaram.
-//-
O mundo parece que acabou.
Dizem que depende do ponto de vista.
Pode não ter acabado, o que seria uma boa notícia, mas seria previsível, afinal não esperamos que o mundo acabe.
II.
Vick esperou o mundo acabar. “Decepção”, algo assim, afinal tudo continuou, e não acabou.
Mas afinal ela não estava pronta para tal. Sentia que tinha que conversar ainda mais um assunto com Mark.
E esse assunto não era o último. Teriam mais assunto.
Conversaram como tinham que conversar.
E, supostamente, nisso um conquistou ao outro, e sorriram. Sorriram, sorriram, olharam-se. Viram todas as discordâncias em um único momento em que concordaram.
“I agree to disagree”.
III.
Então Mark olhou para várias coisas ao mesmo tempo.
Sua história. Sua história recente. Seu passado. As palmas de suas mãos. Sua história.
Sua companhia. Seus diálogos recentes.
Suas cenas.
Sua trilha sonora.
Olhou para todas tais coisas ao mesmo tempo.
Sorriu, mas bem brevemente.
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Aí então Mark se lembrou daquelas coisas antigas que o assombravam, olhou para o brinquedinho. Pensou sobre o sentido da vida, do universo, e de tudo mais.
Pensou que “tudo mais” é algo que não existe de verdade.
Lugares diferentes, paisagens diferentes, todo aquele ideal de jornada, companhia, caminho, e o mundo lá fora continuava o mesmo.
E enquanto ele estava ali com ela toda aquela idéia de jornada parecia estar adiante;
enquanto ele pensava na jornada toda a idéia de educação sentia-se longe; enquanto ele estava ali em algum tipo de aula toda a idéia de mundo de verdade estava muito longe.
IV.
Mark tinha algo como meia hora para pensar sobre sua vida, a meia hora que preenchia “vick foi dormir” e “vick vai acordar”.
Qualquer tipo de decisão parecia muito incerta vide a importância de qualquer meio segundo.
Quando meia hora é tudo, meio segundo é tudo.
Pra quem não tem nada, metade é o dobro.
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Mark quis dizer adeus. Se afastaram naquela noite.
O meio do caminho é mais atribulado que o começo ou o fim.
Histórias bonitas começam e terminam bem; pena que para Mark e Victoria não foi assim.
Continuarão pensando um no outro, mesmo distantes.
Memórias continuam com a gente até o fim.
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- E na memória tudo é perfeito afinal tudo é bom afinal é uma mera imagem.
- Não, não é.
- Vick, é sim…
- Não. A gente se ilude por coisas assim.
A fogueira continuou a brilhar.
3. Sobre as rememorações do tempo perdido
Depois de algum tempo e muitos livros, Mark voltou a caminhar no caminho do Shell. Algo a ver com um livro que terminava “preciso continuar, não posso continuar, vou continuar”. Esse livro não parecia ter personagens. Como se tudo fosse uma faceta do narrador. Mas nem o narrador era um personagem. Como isso ecoava tanto sua própria vida agora?
I.
Estaria ele sozinho nesse mundo então? Não, pois tinha a si mesmo pelo menos. A própria companhia é suficiente para passar pela solidão?
E esses personagens das histórias, que não deveriam existir fora de tais histórias, mas ecoam por outras? Será que Mark era só um personagem na história da Vick? Mas como então a história dele estava continuando mesmo assim?
Mas porque parecia que a história dele não continuava?
-//-
Por algumas vezes Mark tentou contar sua história ao brinquedinho - para transformar a si mesmo em um personagem de uma vez; porém ele simplesmente não conseguia organizá-la. Como uma frase de uma música “and most my memories have escaped me or confused themselves with dreams”, uma música que Melissa tinha lhe mostrado em algum de seus aniversários com ela, e essa coisa agora estava acontecendo.
Um pedaço do que contou ao brinquedinho:
“Uma vez eu andava pela praia. Estava com minha irmã, e acho que com Melissa. O sol estava se pondo enquanto soprou a brisa. Ana contou uma história que fala de um menino perdido, que encontra uma árvore que fala. A árvore diz que sabe o caminho mas ela não pode sair dali. O menino não acredita. A árvore não quer dizer como chegar, mas ela tem um mapa. Só não diz como ler o mapa, algo que o menino não sabe fazer. E tampouco entrega o mapa. “E o que acontece agora”, pergunto a ela. “Nada, Mark. Fim da história”. Eu nunca entendi o que ela queria dizer. Nesse mesmo dia meu pai foi embora e nunca mais apareceu.”
-//-
“Um dia algum tempo depois, encontrei uma árvore que falava. Não sabia o caminho, e também não sabia se era a minha própria voz que saía da árvore. Porque parecia que ela lia os meus pensamentos. Como Vick. Como Melissa. Porque elas me conheciam melhor do que a mim mesmo? Provavelmente nunca vou rever nenhuma delas de novo.
Depois que abandonei a árvore falante, voltei para casa. Cheirava a pão e café e fumaça de ervas. Minha mãe e meu mestre estavam na sala. Quando falei com eles, parecia que minha voz era diferente da que eu tinha antes da árvore, como se ele nunca tivesse sido minha de fato. E eles falavam comigo mas eu não entendia; cambaleei até meu quarto e desmaiei.
Acordei dois dias depois. Tive os piores pesadelos de toda minha vida.”
II.
“First things first”. O que é rememorar tempo perdido?
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Uma canção antiga dizia “és o avesso do avesso do avesso do avesso”. Mark sempre imaginou o que queria dizer tal regressão. Ou se era na verdade uma progressão - afinal não existe avesso sem algo pra se avessar (?). Faz mais sentido do que dizer que não existe algo a se avessar se não houver um avesso.
Será? O avesso de tempo perdido é tempo ganho, ou seria o tempo perdido o avesso? “...quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha?”...
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Um tempo conversando com uma árvore certamente não foi perdido. Pode-se ter perdido outras coisas nisso, mas partindo-se do pressuposto que o tempo perdido é imaginar como seria algo ao invés de experenciar - qualquer coisa!
Tempo é o único recurso inexorável.
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Rememorando tempo perdido:
Vamos imaginar coisas que já imaginamos mas sob uma ótica diferente já que estamos mais velhos.
“Andava pela praia com Melissa. Minha irmã nos acompanhava, mas foi embora pois tinha que checar seus anzóis. Mel me contou uma história de uma menina que conversava com uma árvore. Ela me contou isso debaixo de uma árvore gigantesca. Estávamos deitados tão confortavelmente em suas raízes que é como se a própria árvore falasse. E ela contava de um caminho que levava ao Vale. Quando cheguei em casa, dormi e acordei em meu sonho no Vale. Continuo imaginando se esse mundo não é o sonho, e somente lá estou de fato desperto.
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O brinquedinho colocou um ponto de exclamação nessa última memória de Mark.
Isso nunca tinha acontecido antes.
III.
Se nossa realidade na verdade é um sonho, o ~tempo perdido~ é tudo menos perdido.
Será que a saída é tão fácil assim?
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Mark estava cansado demais para ponderar, por algumas razões:
Se o Vale fosse só um sonho - e era - ele estaria esquecendo de sua missão. Mas qual a importância dessa missão?
Ele não encontrava Melissa no Vale. Tampouco Vick. Ele encontrava uma pessoa que nunca tinha visto antes. E era como se todo o decorrer do universo existisse em função daquele encontro.
Se o Vale não fosse só um sonho - e não era - porquê diabos ele não estava caminhando para lá nesse exato momento? Porque ele estava remoendo reminescências de restos de rastros de rusgas que já não saciavam sua sede de sérias sortes sobre séries de sortes sonhadas e sincrônicas?
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De certa forma ao contar para o brinquedinho suas histórias, Mark tentava usar um tipo de ~estilo literário~. Como leu inúmeros livros e só admirou aqueles no qual o narrador tinha uma “voz” diferenciada, quis o mesmo. Inadverto de que faria tal coisa mesmo sem querer. Que por si só já contava sobre si como um maluco.
Maluco? Na própria história, colocava a si mesmo como um herói.
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De vez em quando o brinquedinho captava sinal suficiente para puxar um filme. Mark gostava de filmes - por sua raridade, e pela “suspension of disbelief” - como uma história pode parecer plausível se ela estiver sendo “filmada”.
“An assumption develops that you cannot understand life and live life simultaneously”.
“I would say that life understood is life lived”.
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“And as one realizes that one is a dream figure in another person's dream, that is self awareness”.
IV.
Nesse mapa que o velho Shell tinha dado - e não uma árvore falante tampouco Mel ou aquela - linda - garota sem nome - havia o desenho de um Vale. Lá na ilha.
Pôs-se a andar em poucos segundos.
Não havia tempo a se perder.
Não tinha tempo a perder.
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“Água mole em pedra dura tanto bate até que fura”. O movimento de Terra para Água pode ser descrito - figurado? - como Tempo.
O Tempo é uma seta de mão única, andando de mãos dadas com a Entropia, indicando que tudo vai acabar. Não necessariamente acabar, apenas se transformar em algo menos térmico. Mas perder a fagulha (“spark” é uma palavra melhor) não é sumir?
Mark ainda tinha sua spark. “it’s just a spark, but it’s enough to keep me going”, e então ao Vale o filho da água haverá de chegar.
V.
Houve tempo perdido?