terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Diário de um Falcão, partes dez a catorze


Parte dez: Sobre a história do império, e sobre insônia

Já falei sobre o orgulho, e pelos rolês, mas toda vez que haviam pessoas, várias, sorrindo aqui em casa, eu ficava um tanto orgulhoso. Mesmo que não tivesse sido o responsável por trazer ninguém, mas me empenhava em divulgar e avisar todo mundo, e aí ficava andando pela casa e sorrindo das pessoas sorrindo. Era o que eu queria, no final das contas, um open bar de alegria. E quando o open bar de brejas da atlética acabou, me senti um pouco mais distante a cada dia. Talvez, por opção; precisava organizar os pensamentos, e tinha uma prova para fazer também. E provas para fazer dão insônia. Assim como saber que você logo vai mudar de casa. Mudei a primeira vez quando deixei a casa da mamãe e fui para um apartamento, morava com quatro pessoas. Então juntamos com mais duas e fomos morar numa casa que tinha uma sala do tamanho do apartamento inteiro. E mais quatro pessoas moravam numa casa que não era muito maior do que aquele apartamento. Então nos juntamos, com mais uns perdidos do caldeirão do inferno aqui e ali, e nos mudamos para uma casa que era simplesmente enorme. Simplesmente um império. E é deste que falo. E lembro que já tive o mesmo sonho duas vezes, – algo raro, um sonho meu se repetir – em que nosso império era simplesmente duas vezes maior. Inimaginável. E nesse sonho, eu não morava no setor lan house, e sim em um quarto gigante com poltronas e pufes por todo lado, e uma beliche que ao invés da cama de baixo, tinha uma escrivaninha. Igual a uma que vi na Tok & Stok uma vez, em um dos inúmeros rolês que fiz sozinho. É bom andar sozinho por aí, você pensa bastante na vida. E ficar com insônia, idem. Exceto que é melhor ainda dormir um tanto que seja para ficar recuperado para fazer uma prova que vai decidir o próximo ano da sua vida. 2010, o ano do falcão. Em que já pensei a respeito um tanto, ainda penso, e ainda vou pensar bastante. Enquanto esses longos meses que faltam para fevereiro não passam. Longos meses para os quais não espero nada mais do que um pouco de diversão. Coisa que não tive nos últimos três dias, quase nenhuma. E enquanto isso, um cigarro atrás do outro. Preciso me lembrar de guardar alguns para amanhã. E preciso também fazer alguma coisa que me dê sono imediatamente.


Parte onze: O escritório do banza, outrora carinho
Já é sábado; a semana passou em um piscar de olhos, e eu nem vi. Inconscientemente tirando uma folga de tudo o que tinha acontecido, conscientemente tudo continua igual. Exceto pelo escritório, que foi redecorado, e agora pode se passar perfeitamente por uma instalação de arte moderna e surreal; obra minha e de condor e garra ferida. É que é fácil e tentador ficar lembrando para sempre daquela noite no escritório, a última antes de eu conseguir estragar tudo, deitado sobre uma coberta no chão, e ela em cima de um colchão de ar que antes era o único objeto naquele cômodo. Agora vejo na parede uma coleira, um rolo de fita isolante, um celular com carregador, uma miríade de objetos inúteis. E de novo pensei na escolha que fiz, sem querer, aquela do começo do diário. Todos os dias eu penso naquilo, queria parar logo, é algo que não tem fim e nem conserto, é a pior situação de todas. Eu poderia ter tido aquele carinho único daquela noite no escritório por mais tempo, "a gente devia ter passado por isso antes de namorar", mas não foi o que aconteceu. E meu coração murchou. E minha vontade também, e estou com uma preguiça infernal de ir pegar um pouco de água na cozinha. Se pelo menos fosse uma breja da atlética, ou essa água não fosse para mim... mas é melhor não dizer nada, torna tudo mais fácil. Um dia acreditei nisso. E agora tenho um milhão de coisas para dizer, e ninguém para escutar. Um milhão de coisas para ler, e ninguém para contar sobre elas; para escrever tenho pouco, mas ainda espremo cada idéia e cada palavra e desesperadamente transformo em um diário. Que ninguém vai ler. E nesse único momento eu me sinto mais sozinho do que nunca; estou certo, ou errado? Ninguém para responder. Só queria uma palavra de alguém, que fosse especificamente para mim, e para me deixar melhor. É pedir demais, né, ou isso não existe? Alguém pode me deixar melhor, ou ao menos bem? Essa luta infernal continua e não pára nunca, Thanatos no talo, preguiça já tomando a dimensão do que se chama depressão. É fim de ano, as pessoas somem, o open bar de alegria rapidamente se torna um closed bar. E parece que fecharam as portas atrás de mim, bem na hora em que fui fumar um cigarro lá fora, ou qualquer coisa assim.


Parte doze: Romance
Top 5 filmes brasileiros (fora de ordem): Cidade de Deus, A Máquina, Romance, Central do Brasil, Saneamento Básico. O primeiro conta uma história que só poderia ser contada em um filme brasileiro; várias histórias paralelas e que se cruzam, aliás, e isso é algo que considero muito em uma obra. É como a vida, afinal, várias histórias que se cruzam. O segundo conta uma história fantasiosa, bonitinha, simples, e com o tipo de poética de cinema – fotografia, cenas, diálogos e partes cantadas – que é o próprio resumo da arte. O terceiro é um drama, sobre amor. Ou sobre romance? Há diferença? O quarto é um drama, mas sobre família, e cuidado, e jornada. Jornada também é algo que considero. Bem, o livro que escrevi antes desse falava sobre isso, histórias paralelas e jornadas. E o último filme do top 5 é um filme sobre fazer um filme, engraçadíssimo, e bobo. Que fique claro que bobo não é um termo pejorativo. Coisas bobas fazem bem, nos tiram (nem que seja por alguns momentos) do drama que termina sendo nossa vida. Drama que começa com amor, amor que começa com romance. Como disse Wagner Moura, "estar apaixonado é estar sofrendo por amor, e gostar disso". Começa com um encontro casual criado pelas forças do acaso, a chamada conjuntura cósmica; e então se torna, inconscientemente, um jogo de sedução e flerte. Que termina quando alguma das partes comete o erro de se apaixonar. Então a paixão vira amor, e o amor vira rotina. Alguma parte da população humana se diverte com a rotina, ela os tranqüiliza e acalma; outra parte odeia a rotina e abandona o amor quando ele chega a esse ponto. E então passa algum tempo brokenhearted, até outra conjuntura acontecer, e tudo começar de novo.De novo, e de novo, e nunca igual. Mas sempre a mesma velha história, repetida desde o século XII. Aquela velha história de que o amor é impossível.


Parte treze: Sobre o palácio do príncipe
Silêncio. O que lá esteve, está, ou ficou, não é para ser contado, ou ao menos preservado.


Parte catorze: O que é o fim?
Um diário é algo que deve ter um começo, meio, e fim? Se o que ele conta é uma história, não faz sentido que termine... a história pessoal de nosso diário de cada um não tem um fim, e quando ela tem, o diário já não é mais escrito. E se o que esse diário conta não é nossa história, e sim nossas impressões sobre essa história, faz sentido também que elas tenham um fim, mesmo que nossas impressões, opiniões, julgamentos e juízos de valor sobre toda coisa no mundo não parem nunca? Não faz sentido um diário ter final. Mas bem que eu queria um final. È muito saudável dar um fim a uma história, quando esse fim deixar espaço para outra começar, e de novo, e de novo. Finais do tipo felizes para sempre tiram essa possibilidade. E as coisas não são feitas para durarem para sempre, isso é uma falsa idéia a respeito na maior parte do tempo. E queria que a história pudesse ser dividida em partes, quer dizer... não a história que conto, mas a história que dá origem à história que já é contada, e também já dividida em partes. Parte quinze, chegou sua vez. Parte catorze, por favor acabe logo. Ano, mês, ciclo, seja lá como chame essa parte que é a presente em minha história, por favor... acabe logo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário