(#2, Lon Gisland EP)
- Qual o papel de minha família?
Educar-me, tornar-me quem sou, juntamente com minhas escolhas e meu passado (construído por mim mesmo e pelo acaso).
- Quem é minha família?
Meus amigos, meus heróis, meus ícones, minha cultura. Eles são a base para meus sonhos e desejos; estes são a base para a revolução do mundo.
- O que é a revolução do mundo?
"Slow motion popcorn", é transcender continuamente, até o ponto-limite em que se entende, ao entender o mundo não se precisa mais dele, e assim vencemos a revolução - ganhamos o mundo.
- Como transcender continuamente?
Um deve buscar seus próprios meios.
Parte 1
Nos mudamos hoje. Viemos eu e minha família, pela manhã. E já é tarde. Alguma coisa que não conheço me diz que o sol está para se pôr, mas não dou muito crédito a ela. O sol vai ficar mais um tempo no céu, até aquele crepúsculo que tanto esperamos. Mas outra coisa que não conheço, talvez a mesma, me diz que essa mudança não é a primeira pela qual já passamos. Bem, minha família muda com o tempo também. Eu também, aliás. Tudo muda -até bermuda, eu diria. Como aquele poema velho escrito na parede velha da nossa casa nova. Nos mudamos hoje. Nós mudamos hoje. Mudou o cenário, mudou o mundo, o mundo é novo. Esse negócio de mundo novo me deu uma idéia. Algo novo é algo novo para ganhar. Mas guardarei essa idéia para depois. Agora algo me ocorreu e vou pensar em algo diferente... aquelas coisas que acontecem rápido. Pensei no colchão da sala nova, ou nos rabiscos que fiz no meu quarto novo. Nossa casa mudou hoje. Nos mudamos hoje. Todo dia é uma mudança.
Parte 2
Acordei há pouco tempo. E hoje ainda tem cara de ontem; a mudança no fim não é uma mudança de fato. Talvez porque mudamos tão lentamente que nem percebemos quem somos no final das contas. Os momentos de verdadeira revolução devem ser poucos, não sei se já vivi um deles. O tempo tem sido contínuo e não discreto; aquele "ta-ta-ta-ta-ta-ta" interminável é na verdade um "taaaa" interminável. A parede do meu quarto novo velho diz que devo viver a liberdade, conseguir o amor, sentir a harmonia, entender a vida e a morte. Parece difícil. Ninguém disse que não seria. O que fazer a respeito? Vamos começar vivendo a liberdade.
Parte 3
Viver a liberdade é o primeiro que encontrei dos meus próprios meios. O catalisador que começa todo o processo da pipoca em câmera lenta. Um milho de pipoca não tem valor sozinho; ninguém de daria ao trabalho de esquentar óleo para estourar uma única pipoca. Já estourada, uma única pipoca tem algum valor; pode-se comê-la, mesmo que não adiante muito para matar sua fome ou sua vontade de pipocas. Enfim, começa com o processo de focalizar aquelas pipocas na panela, imaginar-se como uma delas, e virar do avesso. Revolucionar a nós mesmos. A revolução do mundo interior é a verdadeira revolução do mundo. Colocando toda nossa casca que nos isola do resto do mundo para dentro, e colocando para fora toda nossa essência branca de amido que nos define e torna quem somos. O amido é nossa identidade. Preciso afirmá-la para poder ser livre. Livre não precisarei mais de minha família, o que não necessariamente significa que vou me desfazer dela. Não, nunca.
Parte 4
Conseguir o amor vem depois. O problema é que não sei o que é amor, na verdade. Minha família já tentou me explicar um milhão de vezes, mas parece ser uma coisa daquele tipo que se recusa a entrar em sua cabeça; simplesmente não faz sentido à primeira vista. Estrelas cadentes, sonhos dentro de sonhos, colo no colchão do canto da sala nova, ou conversas a cinco centímetros de distância, isso sim tem mais lógica. O que há por trás destes pequenos símbolos é aquilo que procuro? Sorrisos. Me parece um bom começo. Sorrisos, carinho, respeito. Imagens inundando a vista. Saudade. Conversas que não parecem ter fim - e não se quer que tenham - olhando para estrelas e estrelas cadentes, proximidade, conforto, bem-estar; borboletas no estômago, cabeça em vários lugares mas atenção em um único, risadas além dos sorrisos. Me parece que tudo isso pode ser chamado de amor. A questão agora é: se a revolução é sobre ser livre, porque o amor nos prende tanto?
Parte 5
A necessidade da revolução começou com duas coisas: a percepção de que tudo era velho se tornando novo - o que também me impeliu a buscar algo novo para mim mesmo - já que eu estava sempre isolado do todo - um todo que é maior que a soma de suas partes. Digressões de lado, o motivo foi alguma canção velha no final de um dia repetido, mas ouvida de forma nova. Raro termos exatamente a mesma sensação diante de uma coisa duas vezes, assim como são raros aqueles momentos em que se olha para o próprio amido com atenção. O amido fica separado do óleo na panela; é importante que se tenha uma tampa nesse momento para evitar a colisão com o chão. Um momento... não, o que eu quero é sair da panela, explorar novas coisas, conhecer mais e melhor, leave the great indoors como uma canção velha diria. Quanto mais eu tento me afastar da revolução, - por preguiça, comodidade ou outro motivo fraco qualquer - mais ela se mostra necessária.
Parte 6
No dilema entre liberdade e amor, terminei encontrando um jeito de juntar os dois. Já ouvi uma vez que o amor só é amor quando é recíproco, do contrário não passa de paixão, obsessão, conforto, não sei quais as outras palavras. Pois eu discordo ao tentar ver as coisas dessa forma. Se o amor deve ser recíproco, ele vai te privar da liberdade; ele vai exigir, e talvez essa exigência seja mais do que o doável e possível. A pressão fora da panela de pipoca é desnecessária; apenas irrita e lhe força a decisões subótimas. O amor devia ser como a família e como o próprio mundo; ele sempre será melhor se não precisarmos dele. Se fica preso com a obrigatoriedade, uma relação de dependência mútua e desesperada é doentia, a proximidade vira uma prisão, as borboletas no estômago se tornam dor de cabeça. Não é isso que eu quero; dores de cabeça em nada vão ajudar na revolução. Que o amor seja leve então, leve, muito leve como pluma que pousa. Não que eu seja obrigado a viver de amor, mas a força que vem dele é uma ajuda inestimável em todo o processo. Sonhos e desejos, é aonde o amor entra no final das contas.
terça-feira, 31 de agosto de 2010
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário