quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

sobre primeiro de dezembro.

tudo começou a virar um inferno prático, por diferentes motivos:

- a temperatura excessiva e repentina aliada a um tempo terrível
- a pressão sem fim da academia e inúmeras coisas pra fazer
- o desmoronamento da vida social devido ao motivo anterior
- a hipocrisia decorrente da falsa felicidade de festas de fim de ano
- a perspectiva de que janeiro será um marasmo eterno

salvam-se as luzinhas de natal.

sem título. (1)

Cole olhava através do arco de pedra. E era como se ele se lembrasse de cada detalhe daquela coisa que via pela primeira vez. Não chamamos de lembranças algo sobre algo que ainda não aconteceu, né? Mas ele se lembrava.
Ele estava de pé em um gramado imenso, mas não era o que via através do arco. Uma névoa cinza, sombras enormes e disformes se mexendo no meio daquilo. E elas queriam sair para o nosso lado do arco, mas Cole sabia que não podiam. Ele se lembrava de já ter tentado sair da névoa e não conseguir. E aquela coisa estranha o atraía lenta e irresistivelmente. Tinha que pensar e se agarrar a motivos para ficar parado ali, ou ir embora logo.
Já tinha chegado longe. Tinha saído faz tempo. E dos prováveis cem mil passos que caminhara naqueles dias, passara uns oitenta mil pensando se não deveria ter ficado. Ele a deixou com saudade, e a deixou, com saudade. Poucos dias já tinham sido muito. Olhou para o amuleto prateado quebrado no meio que segurava na mão direita; parecia que as sombras além do arco também o queriam. Uma coisa que no final das contas nem serviu pra nada.
O vento começou a soprar em seu rosto. Uma borboleta azul que por ali voava entrou no arco, e imediatamente perdeu a cor. Logo lhe veio a memória de um outro dia.

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Dia um

Ele sabia que quando via aquele olhar é porque alguma coisa não estava certa. E era como se Larissa visse através dele, e provavelmente uma névoa cinza cheia de sombras enormes e disformes. Cole tinha muito o que consertar em si mesmo ainda. O tempo com ela tinha lhe feito muito bem, até demais. E esse demais o colocou em uma situação estranha. É que ela sabia o que aquelas sombras significavam, e ele não. Só. Por isso quando olhou por aquele arco as coisas não fizeram sentido. Era só uma questão de ponto de vista. Mas a verdadeira questão é sobre porque a visão dela chega tanto mais longe.

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Talvez de todos os momentos em que Cole andou, o mais memorável foi quando viu o olho. E o olho lhe viu. A lua cheia refletia uma quantidade de luz suficiente para iluminar as nuvens que não vemos. Significativo. Porque ele tinha visto algo exatamente igual na noite em que a deixou. Foi quando voltava do mercado, tinha levado algumas frutas e batatas para trocar pelas coisas que Larissa tinha lhe pedido. Fósforos, uma lâmpada, sabão. E um presente. Ele ficou pensando em qual seria o presente por um bom tempo, mas viu a lua e aquele halo de luz a seu redor; e então sua mente voou para outros lugares.
Ele andava inquieto ultimamente. Alguma coisa muito forte lhe dizia o tempo todo que ele devia procurar um lugar. É que ele não sabia que lugar era esse; parecia algo que ele conhecera em um sonho meio esquecido. Como se essa idéia tivesse sido plantada em sua mente. E no céu, aquele olho que tudo via, com sua íris cor de lua. Provavelmente o olho conseguia ver o lugar que terminaria atraindo Cole no final das contas. Cole ainda pensava no olho quando se viu à porta de sua casa. Em suas mãos, fósforos, uma lâmpada, sabão, e nenhum presente.

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Eram quatro da manhã quando ele terminou de escrever a carta. Tirou aquele amuleto estranho que tinha aparecido do bolso, quebrou-o ao meio e deixou uma metade sobre o papel. Tinha prometido que daria o presente de Larissa pela manhã. E ali estava. Pegou as coisas de que precisava - entre elas, o cajado, alguns escritos, e suas botas. Saiu fazendo o mínimo de barulho possível para não acordá-la. Fez um carinho em Rex, - seu cachorro nunca dormia - mas Rex não latiu. Acendeu o único cigarro de palha que estava levando, e começou a estrada rumo ao alto da montanha.

domingo, 17 de outubro de 2010

um pequeno pedaço de ficção (ou não).

Já fazem cinco meses, duas semanas, e dois dias. Desde aquele sábado em que a gente viu um filme junto. Aí depois se passou aquele tempão de mãos dadas e olhares tímidos e bobos, até aquela hora mais crítica de todas. Você virou o rosto. Eu insisti. Eu acho que sei quando insistir, pelo menos com você. Se bem que ultimamente não tem funcionado muito, o tempo é pouco. E pelo tempo ser pouco, falta aquilo pra gente. Aquele nada. Aí dois meses depois daquele sábado a gente tava deitado um olhando pro outro, e no fundo dos seus olhos eu via o castanho mais castanho, mas também via algo como luz do sol derramada por uma planície inteira. Imagina. Campos de trigo. O vento do final da tarde do horário de verão soprando. Nunca te perguntei se você prefere horário de verão ou normal. Mas a gente correndo pelo trigo como se nada ou ninguém no mundo inteiro fosse fazer a mínima diferença pra gente naquele momento. O mundo seria nosso. O mundo ainda é nosso. Em todas aquelas horas em que eu te olho e te beijo e não canso de olhar para você nunca, e a madrugada passa em um piscar de olhos. Passamos várias dessas. Na verdade eu queria ter passado mais. Porque olhando daqui agora, a maioria das minhas memórias são tudo aquilo que eu queria ter feito. Queria ter passado mais madrugadas com você. Qualquer momento serve na verdade. E só um beijo a mais. Boa noite.

sábado, 16 de outubro de 2010

and why do we like to hurt so much?

a gente gosta de se machucar tanto porque termina não percebendo os limites dos outros pra coisas que a gente acha que vai fazer bem e termina se decepcionando, aí ninguém tem culpa na verdade, só fica aquela coisa esquisita e involuntária e indesejada, mas enfim, é uma coisa que a gente gosta sem saber que gosta.


pra sá.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

não abandone o blog, não.

Sabe, parece um esforço. A coisa toda parece muito mais difícil quando se procura o que dizer. Me lembra aqueles momentos em que um sorriso não é o suficiente. Talvez seja até, mas não parece. E aí dá aquela vontade de dizer alguma coisa pra preencher o espaço vazio que se forma sem que se queira. Acho que ninguém quis o silêncio, ainda. Porque uma hora aquela hora de parar chega e aí vem aquele velho enjoy the silence, mas antes disso um sorriso não é o suficiente. Eu pensei que fosse o tempo todo. Até ouvir que eu devia falar o que sinto. Sinceramente não consigo nem pensar nisso, quanto mais falar. É muita coisa pra verbalizar. Pouca vogal me veio à cabeça. Não, nunca ouvi, só sei aquilo que o Liws me disse. Mas eu ouvi bastante naquele tempo todo, exatamente porque só conseguia sorrir e não falar. Aquele sorriso me faz falta. Me faz porque dizem que eu fico melhor sorrindo. Mentira, quem diz isso sou eu, e não sobre mim mesmo. Transferência, projeção, aquelas coisas de psicólogos. Dizem quem funciona. Sorrir mais funciona. Rir mais. Vamos rir mais. "Quer um chiclete?", se houvesse o que dizer o tempo todo ninguém perguntaria isso, só ofereceria em silêncio. Ganchos pra algum assunto. O que eu terminei concluindo depois dessa divagação toda é que pausas são necessárias para que se perceba o quanto aquela voz faz falta.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Diário de um Falcao: parte dezenove

Parte dezenove: cada pedaco

Eu acho que cada pedaco meu queria estar em outra parte agora. Desejo mil coisas diferentes, cada uma por sua vez com mil possíveis formas, buscando sua parte dentre os mil pedacos de mim. Mil é um bom número. Porque é redondo e fácil? Ou só porque é grande? Nao sei, forca do hábito. Cedilhas fazem falta tanto quanto o til. Ainda mais para falar de pedacos, ou cada um. Bem, um deles quer um outro pedaco que o complete. Um deles quer simplesmente ignorar a interferencia dos outros e viver conforme o que bem entende. Circunflexo também faz falta. Mas um tanto nocivo esse segundo pedaco, nao...? Me levaria a deixar de ser o todo maior que a soma. Vivem me repetindo isso há tanto tempo que eu acredito, mas será que é verdade? Um pedaco meu pode ser menor que o todo, mas porque nao melhor?, e indo mais além, porque melhor ou pior? Ele nao é eu, poderia apenas ser uma coisa diferente. Mas se fosse só ele seria eu, ainda que eu nao seja só um pedaco. Nao sei pra onde ir. Um outro pedaco meu quer ficar aqui pra sempre. Esquece de todo o resto, dos pedacos querendo crescer e dos que buscam um final; simplesmente estende o presente. Procastina (ou procrastina?, nao sei o certo). Esse pedaco faz exatamente o que eu tenho feito. Ta, exatamente nao, eu tenho feito alguma coisa; ou isso é um pedaco meu querendo me enganar? Eu ando um tanto viciado em adornos. Aquelas pequenas coisas que criam momentos só pra elas, e nos fazem esquecer de tudo além de uma certa sensacao. Pode ser um chocolate, uma lata de cerveja ou um pao italiano. Um pedaco seu gosta daquilo mais do que tudo no mundo. Bem, escrever um diário termina sendo um adorno também.

sábado, 4 de setembro de 2010

Diário de um Falcao: parte dezoito

Parte dezoito: aquela coisa lá


Às vezes me sinto naquela coisa de "o que eu quero ser nao existe". Coisa da minha cabeca né? Coisa da costela, coisa da cerveja, coisa do dia que nao acaba nunca. E também nao passa nunca. Tem coisa na sala, tem coisa na varanda, e eu to aqui no quarto. To velho. E nao se tem o que fazer. Nem picar o pé em coisa nenhuma.