quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Diário de um Falcão, partes um a nove

Prólogo
"O falcão uivou, olhou para o pôr-do-sol por cima do telhado, pegou uma breja na conta da atlética, entrou na piscina com as gostosas, e simplesmente sorriu por estar ali." Sorriu por simplesmente estar ali. Morávamos em onze; a verdade é que nunca estivemos os específicos onze dentro da casa em um mesmo momento. Mas não precisávamos daquilo. E andar por ali no meio da madrugada, ver ao mesmo tempo as latinhas vazias, a piscina cheia vazia, o toldo branco e o pequeno sofá que colocamos ali; ver o que era durante a noite o império que criamos a cada único e novo dia. Cada um de nós era feliz, se fez feliz, foi feliz, só queria ser feliz. Eu só queria ser feliz. E ela me odiava. Ela odiava os onze, ela odiava os falcões, ela odiava aquela casa, a famosa melhor de todas; ela odiava tudo isso porque me mantinha longe dela. Era algo que me arrastava para longe dela. E, em um momento, eu não sabia que estava fazendo uma escolha, eu tinha que fazer uma escolha, eu inconscientemente fiz uma escolha; entre amor e amizade, escolhi amizade. Minhas amizades. Minhas latas de cerveja de um real. Eu sentiria falta dela para sempre, eu lembraria dela para sempre, uma vez a cada dia, um pouquinho a cada dia, aquele sorriso perfeito. A cada dia. E a cada dia eu iria até o fundo olhar a piscina e as árvores e o sofá e o toldo branco; aquele império que cada um de nós onze construiu para si só, um lugar fora do tempo, um lugar maior do que o tempo. Só o que precisávamos, mais do que poderíamos querer. E não sei se fiz a escolha certa ao, naquele dia, escolher amizade ao invés de amor. Só sei que não fiz a escolha errada.


Parte um: Sala de sofás, e videogame
Bomberman, Need for Speed, Campeonato Brasileiro, Rock n' Roll Racing, Rock n' Roll, Rock. Eu acordava de manhã muito cedo, às vezes; nas outras, acordava de manhã depois do meio-dia. As outras eram bem mais freqüentes do que aquelas. É que eu iria lembrar daquelas para sempre. Cada única ocasião em que acordei cedo, cada dia daqueles foi diferente. Rock, samba, metal, new age. Agora olho para as paredes pintadas da cozinha. Mas falemos da sala dos sofás, e deixemos a cozinha para outra ocasião. Há o anti-calote, me lembrando do quanto devo para as pessoas. Às vezes, só devia para as pessoas. E raramente, tinha a receber delas. O sistema de crédito que criamos era algo totalmente funcional, algo que permitia que rolês acontecessem, rolês que não aconteceriam se pessoas não tivessem dinheiro vivo na hora. Assim como disse uma vez para o gaivota, a breja da atlética que podia ser marcada em uma lista e custava um real era a coisa que começava o rolê. Inúmeros rolês começaram por causa dessa breja. Não me lembrarei de todos eles, claro, estava bêbado, mas me lembrarei para sempre deles. Lembrarei que sorria, e falava, e escutava. Via os outros sorrirem, via os outros falarem. Os outros podiam ser agregados ou moradores. Não importa, eram parte essencial da minha vida. Parte essencial, seja na sala jogando videogame, ou no fundo jogando conversa fora, ou na minha janela olhando enquanto liam aquelas coisas que escrevi. Coisas como essa que se lê agora. Coisas sobre coisas que vou guardar, assim como vou guardar um monte de coisas, assim como vou guardar minha vida naquela casa, e meus amigos, para sempre.


Parte dois: Sobre os falcões
Sei que foi algo que criei, mas não me lembro exatamente como. Uma resposta aos condores, uma tentativa e vontade de finalmente pertencer a um grupo. Talvez não um grupo, mas uma elite. Se bem que todo grupo é uma elite, todo grupo automaticamente exclui os que estão fora do grupo – a não ser que esses fora sejam candidatos ao grupo. Mas o grupo dos falcões era seleto. E agora, nesse momento em que escrevo esse diário, ele tinha quatro integrantes. Talvez cinco. O falcão da barba ruiva, o falcão da garra ferida, o falcão uivante, o falcão verde. E o falcão filhote. Sobre cada um deles: o barba ruiva é este que vos fala. O garra ferida é aquele que, nos dias que acordo cedo já citados, está jogando videogame na sala dos sofás. Ou, quando ele não está, quem está é um condor. Talvez eu fale sobre ele mais tarde. E o garra ferida é uma pessoa que tenho em alta conta até o final da minha vida. Todos os falcões, na verdade. É que quando se escolhe um grupo, os escolhidos por esse grupo tendem a retribuir essa escolha, e talvez se tornam seus melhores amigos. Não é sempre que isso acontece. Mas o falcão da garra ferida era um deles, o filhote também. O falcão uivante sempre podia ser encontrado jogando Winning Eleven, e assim como o da garra verde, era o cara que trazia a massa. A massa tornava pessoas felizes. Talvez nem tanto como as brejas da atlética, talvez mais, talvez a massa tornava as pessoas mais felizes, e a breja tornava mais pessoas felizes. Volte duas linhas, e leia de novo. Assim os dias passavam, à base de breja, massa, e comida; a comida sempre colocada no anti-calote. Esses eram os três recursos que alimentavam nosso império. Talvez houvesse um quarto recurso, alegria, que sempre era open bar; mas talvez alegria seja um resultado, e não um recurso. Talvez alegria seja um objetivo. O próprio objetivo da vida em si. E algo que teríamos open bar para sempre, naquela casa.


Parte três: A janela do meu quarto
Dormir com a janela aberta era sempre um risco, de se chover de noite e acordar com o rosto molhado, ou de se acordar com o sol na cara, bem cedo. Nos dias em que acordava com o sol na cara, ia para a sala dos sofás e ali tudo começava. Nos outros, só voltava para meu quarto para escrever meu diário, ouvir uma música, ou sentar na janela. Uma coisa não exclui a outra. Na verdade, só escrevia ouvindo música e só sentava na janela se pudesse ler um livro e ouvir uma música. E a janela era o melhor lugar do mundo, a janela é o melhor lugar do mundo, é a minha casa, representa minha casa. O império que nós onze criamos, o ninho dos falcões. Decorei com exatidão todas as coisas como eu deixei. E a cada momento mudavam aquilo, mudavam minha vida. E eu lembrava daquilo, exatamente, por mais que tendesse a esquecer tudo. Talvez porque eu queria esquecer, talvez porque eu precisava, ou porque teimava. A maioria das coisas não era algo agradável. Sobre todas as coisas que eu não quero lembrar, diria que foram tempos difíceis. Mas todos o são. Todos nós vivemos apenas tempos difíceis. Aquela velha história sobre cada um de nós estar perdendo o tempo todo, o desejo de sobreviver, mais do que um desejo, uma necessidade, aquilo que nos leva a navegar pelo mar da vida. Com ondas batendo a cada instante, fazendo doer, podemos quebrar um braço numa onda um dia, como um falcão já quebrou. Mas, no meio desses tempos difíceis, temos algo para nos acalmar e dar a força necessária para seguir em frente. Os momentos bons. Vivemos tempos difíceis entremeados por momentos bons. Como aqueles em que sentei na janela do meu quarto, li um livro, tomei uma breja e fumei um cigarro. Os belos momentos que vivi naquela janela, a janela que representa minha casa para mim, e os tempos belos em que vivi naquela casa.


Parte quatro: Chuva de verão
Olhávamos para o videogame, depois para a chuva. Eu e o garra ferida conversamos, sentados na conservadora da atlética, a mesma atlética que nos trazia breja, por alguns minutos. Chovia, aquela chuva de verão. E em nossa cidade há o verão eterno, nossa cidade é o caldeirão do inferno, nosso ninho de falcões é mais quente do qualquer um que jamais se teve notícia. E encontramos mais um filhote de falcão, perdido no ninho, perdido em sua própria vida e seus próprios pensamentos. E me vi nesse filhote. Sempre vemos a nós mesmos em nossos filhotes. Vemos a nós mesmos em qualquer coisa que façamos. E sorri. Sempre sorri ali. E sorri mais ainda quando vi o arco-íris no céu. O primeiro arco-íris que vi naquela cidade, em dois anos. E o primeiro que vi naquela casa, em dois meses. Longos dois meses, belos dois meses, dois meses de piscina e gostosas, e em que estive longe dela mais do que nunca. Exceto por curtos dois dias. E então estraguei tudo, e tudo acabou, e nem a chuva de verão resolveria aquilo. Pelo menos ela me consolou, por aqueles minutos em que estive com garra ferida e o segundo filhote e quem mais estivesse ali olhando o arco-íris. Que na verdade podia se chamar arco de chuva, ou rainbow. Mas traduções são feitas por pessoas, e cada um sabe o que faz. E eu sei que sinto sua falta. E nos acostumamos a usar o sua para o você, quando na verdade o sua pertence a ele/ela, e deveríamos falar tu. Mas eu só consigo falar eu. Como ela disse, eu só consigo pensar em mim mesmo. E digo que, além de pensar em mim mesmo, também penso na chuva de verão e no arco de chuva que ela trouxe. Só nisso. Preciso pensar em algo mais? Preciso pensar em algo mais.


Parte cinco: Aquele rolê até o centro
Demos aquele rolê por um motivo. Fazemos cada rolê por um motivo. Eu não tinha um motivo para minha vida, talvez não queria um motivo para minha vida. E viver sem um motivo era bem mais legal. Mas não sei. Nunca vivi minha vida com um motivo. E, naquele momento, em que quis estar em algum lugar, finalmente o tive. Estávamos eu, Zé, garra ferida e primeiro filhote. Berrando para as pessoas que passavam na rua, e rindo daquilo. Como ríamos daquilo. Berrar para as pessoas era muito engraçado. Haviam muitas coisas muito engraçadas que aconteciam o tempo todo. Rir leva à alegria, alegria é tudo o que queremos. Né? Realização, orgulho, amor, dinheiro, nada vale mais do que alegria. Talvez. Provavelmente. Realização é algo que nunca tive. Orgulho, nos últimos tempos, tinha tido por causa de rolês que armei. Mas... quem arma o rolê, quem faz o rolê, é quem está nele. A nossa vida, quem arma é a gente; quem faz é quem está nela. Mesmo que você esteja completamente sozinho em algum ponto do tempo, alguém provavelmente vai vir lhe procurar. Amor... tinha e perdi. Parece que joguei fora, me convenci de que joguei fora, sempre vão me dizer que joguei fora, ela vai estar certa para sempre de que o joguei fora. Mas no fundo mesmo, foi sem querer. Se houve algo que quis manter para sempre, foi o amor. O nosso amor. Mas, como dizem, não adianta chorar o leite derramado. Por mais que esse rolê tenha sido eu que armei, quem o fez foi ela. Aquele rolê até o centro fui eu que armei. Custou sete reais. E falando do dinheiro, ao contrário do amor, nunca tive. Mas, assim como o amor, joguei fora; ou perdi, ou qualquer coisa. Na verdade gastei bem. Sete reais para berrar para pessoas na rua e dar risada e ter um pouco de alegria com meus amigos é um dinheiro bem gasto. E dinheiro é besteira, amor é besteira; tudo o que eu preciso é de amizade e carinho. Sobre carinho, falarei depois.


Parte seis: O setor chambinho
Não sei como. Mais do que não sei como, não sei aonde. Mais do que não sei aonde, não sei por quê. Foi treta, sim, nas duas ocasiões em que isso aconteceu foi treta. Numa delas, saí do setor chambinho sorrindo. Na outra, não sorri, mas também não chorei; nem uma lágrima, mas talvez porque todas já tinham ido embora em um dia anterior em que sentei em meu quarto e ouvi uma música e olhei para a janela. Mas o setor chambinho era divertido, dormia lá às vezes, e parecia uma extensão do meu quarto. Vezes em que estava bêbado demais para ter uma escolha sobre aonde dormir, e na verdade não dormia; desmaiava. E acabei de vê-la, não a mesma, mas aquela que ligeiramente e com seu jeito único arrastava lentamente para a direção que quisesse o rumo de minha vida. E ela acabou de ir embora, e seus olhos brilhavam, e senti que não deu a mínima para mim. Eu tendia a ser o cara do tipo que se fala a respeito "ele não existe", e assim, eu continuava, só existindo e contrariando quem disse isso e nunca vivendo de fato, só existindo. Mas poderiam eles estar errados ao dizer que eu não existia? Eu tinha uma vida, e a adorava. Por mais que fosse deficiente de inúmeras coisas que existem na vida de pessoas normais que chamam sua vida de vida. E eu só queria dizer que você é linda. E, que naquele dia que saí do setor chambinho, sorri. Nunca sorri mais do que algumas vezes em particular em que estive com você, mas sorri mais do que sorria na média dos momentos em que estivemos juntos. Você me trouxe sorrisos, mas trouxe também muitos momentos difíceis e poucas lágrimas. E eu continuo me desculpando, inconscientemente, mas quero parar, e não consigo. Quero parar, mas não consigo. E naquela vez em que saí do setor chambinho, não estava com você. E mesmo assim sorri, um monte. E sobre carinho, acho que vou ter que falar sobre carinho duas vezes. Se bem que na vez em que houve carinho no setor chambinho, não era carinho, apenas... vontade.


Parte sete: O fundo, e a piscina, e as gostosas
O ser é um estar constante, e o estar é um ser momentâneo. Ambos são "to be". Eu não sabia se era no fundo na piscina com as gostosas, ou se estava. Eu não sabia por quanto tempo aquilo ia durar, ou seja, não saberia se estaria ali depois, ou em qualquer momento. Só sabia que, em alguns momentos depois, estaria ali. Eu não queria que aquilo acabasse nunca, eu achava, ou sabia, que aquilo não ia acabar nunca. Era o nosso império, era o que criamos, um morador e cada morador com seu tijolinho para a parede que segurava o hall of fame. Que está infinitamente distante da sala que não era a sala dos sofás, e sempre que eu ia pegar uma breja na conta da atlética e que estava lá no fundo, eu corria. E ria, enquanto corria. E ria, sempre... especialmente no fundo com a piscina e as gostosas, ou talvez ali eu sorria. Não, acho que não. Sorrir, era quando estava com ela, ou em momentos cada vez mais raros conforme o tempo passava e ficávamos mais longe. Tirando aquela noite no escritório, mas já disse que fica pra depois. E eu ficava mais perto das gostosas que se aglomeravam e enxameavam o redor da piscina, mas nunca estaria perto delas o suficiente. Será que só sorte?, como tudo na vida? Seria destino, ou seria conseqüência do que me tornei e vivi e fui? Fui... feliz. Ao redor da piscina, com as gostosas e o som e a churrasqueira acesa e a televisão ligada passando campeonato brasileiro. Acompanhada daqueles bolões que ninguém nunca ganhou, mas também nunca pagou. E acabei de me lembrar das brejas que nunca vamos pagar, e será que algum dia ganharei alguma coisa na vida? Alguma coisa que não seja uma mera inútil e totalmente e importantemente simbólica medalha do interpsico, e que, pra completar, roubaram de mim?


Parte oito: A boa sorte
Disse para o gaivota me dizer boa sorte, como sempre; andei até a casa dela, sentamos na calçada, algo que nunca tínhamos feito, e então conversamos por quatro horas – algo que já tínhamos feito várias vezes, e sempre era bom. E eu pedi um abraço para que pudesse ir embora, e nos abraçamos por umas quatro horas, apertado, um tipo de abraço épico. E falei um tanto de groselha, mas isso é o que sempre faço, e o que estou fazendo exatamente agora; fazer os outros ouvirem groselha, por alguma razão eu acredito nisso e queria que todos entendessem, mas nunca ninguém vai entender 100% disso aqui, ou daquilo, ou de qualquer coisa e groselha que disse. É desesperador; claro. Estava desesperado quando pedi aquele abraço, me senti derreter ou quebrar em milhões de pedacinhos enquanto aquele abraço acontecia, mas pelo menos ela estava ali para me segurar e evitar que me esparramasse pela calçada, ou fosse levado pelo vento das quatro da manhã. E aí, nos beijamos, fui embora, ao chegar em casa joguei videogame por mais quatro horas, conversando com o filhote de falcão. Beijá-la naquela hora foi... não tenho idéia. Um tipo, de sorte... mas não aquela sorte que é só sorte, e ver coisas acontecendo, mas aquela sorte que agrupa e nomeia coisas boas. Acho que esse conceito não foi criado ainda. Então vamos lá: há a sorte, aquela que te faz ganhar na loteria ou no poker ou no bolão de um real do campeonato brasileiro. Há a sorte, aquela que te permite andar pela rua quatro da manhã e não ser assaltado, estuprado, estrupado, estripado, assassinado ou perder o fígado ou as bolas. A invencibilidade. E há a boa sorte, aquele conjunto de momentos bons que podem ser tensíssimos, mas mesmo assim entram no hall of fame, assim como o de ontem. Uma cadeira do hall of fame pertenceria às quatro horas que se passaram ontem enquanto conversávamos, e a outra cadeira pertenceria às quatro horas em que ficamos abraçados e aquele beijo delicioso e do qual eu precisava mais do que tudo e que aconteceu. A parte importante foi quando ouvi "seja resiliente, e você pode contar com as pessoas, mas não dependa delas", isso foi o que gravei. Não, isso é a impressão que ficou. A parte realmente importante foi que conversamos, e tudo o que se passa nessa cabeça da gente foi pelo menos um tantinho esclarecido, mas... um tantinho bem bom. E eu disse muita groselha, e é o que faço quando fico bêbado, e nos últimos dias isso tem sido uma constante, aquela velha história do começo da parte sete. Foi bom, naquela noite, conversarmos. Foi importante, foi o que importou, contrariando o que dizem, que futebol é o que importa. Meio que futebol e o bolão representam amizade, e ontem amor. Aquelas duas coisas que tive que escolher entre. Aquela noite não representou amor, na verdade, e sim algo como uma tentativa desesperada de duas pessoas ficarem melhores e tornarem tudo melhores entre si, porque um dia houve amor, mas foi jogado fora. Por mim, eu sei. E nunca acredite em te amo pra sempre, exceto ontem. E aquele beijo, foi 50% carinho, 25 desespero, e 25 licença poética. Como aquela noite teve licença poética, e groselha, e... boa sorte. O gaivota acertou.


Parte nove: O setor lan house
A casa tinha dois computadores; um era do segundo filhote, e o outro de Zé. E, como eu dividia quarto com Zé, ele também era meu. E eu não lembro de um dia ter estado em algum lugar do meu quarto que não fosse minha cama, a janela, ou a cadeira em frente ao computador. E minha cama não importa para muita coisa, não aconteceu nunca nada lá além de sono, e momentos que se passam dormindo não são momentos conscientes, ou seja, não importam. Sobre a janela, já supracitada. E sobre o computador... falar sobre ele é como uma meta-história, por ser aonde estou escrevendo agora, mas não importa. E além desses três lugares, lembro de duas ocasiões. O dia depois daquela festa, que foi marcada por ser a primeira festa em que estava solteiro; e consegui não pensar nela por um bom tempo. E rimos, foi muito engraçado estar um zilhão de pessoas no meu quarto, e todas ainda meio bêbadas, divertimo-nos. E a outra vez, aquela dia que tudo acabou e começou de novo no mesmo dia, pareceu que ia durar, mas foi só por um pouco tempo, e estivemos sentados bebendo cerveja e comendo queijo, eu, garra ferida, o condor, e sua condora. E o condor estava mais feliz do que nunca com sua condora, via-a pouco demais, menos do que queria. E eu sentia falta de minha falcoa, e sorte que meus companheiros de rapina que ficaram na janela comigo aquele dia conseguiram me salvar, salvar de mim mesmo. Porque em outra vez que minha falcoa deixou meu ninho, havia a já lendária e hoje proibida breja da atlética na geladeira, e aí que eu não saí de meu quarto, mesmo. Só para ir até a geladeira. Fiquei na frente do computador, um bom tempo. E o que se lê agora é o report que ninguém me pediu mas eu precisei fazer. Leia com atenção, porque o que eu digo nunca será muito inteligível, pelo menos enquanto eu sentir que ninguém me entende. E contemos uma história, devaneios são legais às vezes, falar groselha resolve a tensão, mas que a história comece. Por mais que termine e comece de novo, e termine, e nunca tenha fim, ou começo. Se bem que o que importa não é o fim ou o começo, e sim o meio. Sinto isso tanto para histórias quanto sinto em relação a ela.

My Soundtracked Life

Music by John Smith
Intro
Happiness is a Warm Bazooka
Moments Forever Missed
L'innommable
Brighter Eyes
The Night You'd Want To Save Forever
Rain
Hate
(Sounds of Silence)
Run Away
Moments Forever Kept
Rule Number Three
Sun
Goodbye, I'm Going Home/Waking Up (Hidden Track)


Intro
O barulho insuportável do despertador que precedia o silêncio de cada manhã finalmente fez-se ouvir. Exceto que não era manhã, era madrugada; e John tinha a impressão de que era a única pessoa do mundo que estava acordando naquele momento. Enquanto se levantava, uma rápida recapitulação das lembranças dos últimos dias passou pela sua cabeça. 24 horas atrás, andava pela cidade na chuva. 48 horas atrás, ela estava praticamente dormindo de pé abraçada a ele, até o momento em que os dois se olharam nos olhos, mais fundo do que jamais olhariam. E 72 horas atrás, estava com ela. Não a mesma, mas sim a ela que John culparia como responsável por tudo o que se passou nessa profusão de acontecimentos que ele já tinha vivido até aquela hora, e viveria ainda até o fim de sua vida. Exceto que ela não tinha culpa nenhuma, e não poderia nem ser chamada de responsável indireta por aquela situação.


Happiness is a Warm Bazooka
Feliz. Era a única palavra que descrevia (e descrevia com precisão absoluta) o estado de John naquele momento. Tinha tido uma excelente noite, a melhor de todas em qualquer parâmetro. E tinha estado com ela. Não se lembrava de todos os detalhes, claro, mas ao andar pelo curto percurso da casa dele até sua casa, tudo o que sabia era que não queria mais nada da vida. Mentira, naquele momento ele queria um cigarro. Desesperadamente. Só porque percebeu que não fumava há dias. Desde que ela tinha parado de fumar, ele não fumava na presença dela. E os últimos dias tinham se resumido a ela, na simplória, agitada e sempre igual vida de John. Não sempre igual, na verdade, mas sim sempre diferente. Cada dia era único, mas mesmo assim ele sentia que eram todos iguais. Porque nada realmente de novo lhe acontecia. Sua vida tinha parado no tempo há meses e ele não tinha percebido. Vivia preso em um vórtex de espaço-tempo, que a cada dia o consumia mais. Mesmo estando totalmente feliz naquele momento, sentia que precisava de mais. Queria mais. Sempre mais, e sempre algo que nunca alcançaria. Então, ao passar pela frente de um posto de gasolina, entrou na loja de conveniência e pediu um maço de Lucky Strike Nites. Meio minuto depois, já estava fumando. 12 horas depois, estaria em uma festa na chuva. 36 horas depois, estaria andando pela cidade, sozinho, na chuva.

Moments Forever Missed
Quando criança John queria ser cientista. Desde a primeira vez em que assistiu O Mundo de Beakman, queria ser cientista. E nisso, era só uma criança. É que todos crescemos e mudamos nossa opinião sobre o que é o mundo. E então John quis ser um psicólogo. Não sabia porque, não sabia bem o que era psicologia, mas queria ser um psicólogo. Queria saber o que se passava na cabeça das pessoas. Queria saber o que se passava em sua própria cabeça, na verdade. Talvez conseguir entender alguma coisa sobre seu futuro a partir de seu passado. Seu futuro era inimaginável. E seu passado, algo que ele queria apagar a todo custo. Ele tinha tido uma infinidade de momentos bons, é verdade; mas queria algo melhor. Nunca ficaria satisfeito com aqueles fragmentos que chamaria de vida. Eram apenas momentos dos quais sentiria falta pelo resto dos seus dias. Porque nossa vida só tende a piorar, sempre. O que muda e nos faz pensar que está melhor é apenas nossa percepção dela; temos mais com o que comparar, temos mais do que lembrar, temos mais para ocupar nosso tempo.


L'innomable
Não sei o que se passou em minha mente naquele momento. Apenas pareceu a coisa certa. Pode ser que um dia eu pare com isso, pare de ser assim, quero parar, mas não consigo. Na verdade já parei há muito tempo. Parei de querer mais coisas, esse tal de longo prazo, quero apenas estar onde estou, e fazer o melhor do que sou em cada instante. Mas será que isso é vida? Porque temos que ter objetivos o tempo todo? Por que não vivemos um dia de cada vez? Culpa da agricultura. Culpa do dinheiro. Culpa do trabalho. Culpa do salário. Mas o salário é conseqüência do trabalho, e o trabalho é conseqüência da agricultura. Sei que preciso parar. Mas não sei o que fazer. Não sei o que fazer a respeito de mim, não sei o que fazer a respeito de agora. Agora eu queria um cigarro. Mais do que um cigarro, agora queria vê-la. Ver aquele sorriso perfeito de novo, passar a mão por aqueles cabelos de novo. Mas não posso. Vejo apenas carros parados, vejo pessoas correndo atrás de mim. Preciso correr. Não posso parar. Quero parar. Não posso. Preciso continuar. Esse silêncio não é nada. O silêncio não vale nada. Quero ouvir a voz dela de novo, aquela linda voz desafinada, aquela voz desafinada dizendo que me ama, preciso de alguém que me queira bem, não sei se preciso mais, preciso parar, mas não posso parar, sei que quero parar, vou continuar, não posso continuar, continuar é o que é preciso, não sei se o que quero é o que preciso, preciso parar, preciso parar com essas coisas para minha vida, não sei se ainda tenho uma vida, quero um sentido, o sentido é um só, não posso continuar, preciso continuar, preciso parar, vou continuar.


Brighter Eyes
A festa para todos ali era uma, a festa para John era outra. Pelo menos até ela chegar. Com seus claros olhos radiantes, seu oi indefectível, e seu abraço apertado. Então, consciente ou inconscientemente, tudo mudou. Como se John gravitasse ao redor de sua simples presença. Claro, ainda tinha seus amigos, – a coisa que ele mais prezava em toda a vida, a coisa que o tirava da chatice de seus dias sem amigos – mas qualquer oportunidade para ficar por perto dela era imediatamente agarrada. E ela bebia, e ele bebia junto; ela sorria, e ele sorria junto. Tudo o que John queria era um simples beijo; não sabia que teria muito mais, mais tarde. Começou quando a força de todo o álcool que ela ingeriu se fez sentir, e ela precisou de todo o apoio possível. Para não cair no chão, simplesmente. E mesmo com John e todos seus amigos (os dela) lhe segurando, ela ainda assim caiu seis vezes. Até que a festa acabou, John conseguiu uma carona, serviu de travesseiro para ela que dormia como uma criança, e ouviu um "dorme comigo hoje". Ele não entendeu nada, mas era incapaz de recusar. E a cada segundo a vontade de beijá-la lutava contra o bom senso que o dizia para não fazer aquilo. Ele se sentiria culpado depois, sim, ele não saberia como olhar para ela depois, aquilo seria errado. Então ela tirou dele qualquer poder de decisão. Dormiram exaustos, acordaram sorridentes – coincidentemente no mesmo instante – e se olhando. Os olhos dela, mais brilhantes do que nunca. Ele, feliz. No momento que olhou para o relógio, 2 da tarde, devia ser sexta, esqueceu totalmente dela. E pior ainda, no dia de seu aniversário.


The Night You'd Want To Save Forever
"Quer vir conversar?", foi como aquela noite começou. À tarde ela tinha dito para ele que queria um tempo. Mas um tempo nunca era só um tempo para John. Passou o começo da noite em casa com alguns amigos, bebendo cerveja no peitoril da janela. E de noite, ele ligou para ela. Claro que não resistiria. Então tomou um banho, passou seu perfume, e foi encontrá-la. E ali estavam os dois no sofá, ela deitada em seu colo chorando, ele passando a mão por seus cabelos. E não conseguia chorar, todas as lágrimas já tinham ido embora no final da tarde. E conversaram longamente, sobre os dois, sobre cada um deles, sobre qualquer outra coisa no mundo. Mas o assunto que menos conversaram foi sobre os dois, juntos. Talvez por causa do desejo incontrolável e recíproco de continuarem juntos. John não sabia o que queria da vida, exceto que queria estar junto com ela. Ou pelo menos saber que estava com ela. Uma simples ilusão convincente de que estaria com ela para todo o sempre servia. E ela sabia o que queria da vida, perfeitamente. Só não sabia o que fazer em relação a ele. John era cheio de defeitos, fato. Mas ela o queria, por algum motivo. Levantaram do sofá, e ela não quis dormir sozinha. Não naquela noite. Então era sinal de que os dois tinham voltado. Oito horas atrás, ele não tinha mais uma namorada. Oito dias depois, ele não tinha mais sua vida.


Rain
Sexta, madrugada, John andava na chuva. Andar na chuva era algo que lhe fazia bem. E naquele momento ele precisava só se sentir bem. Depois de ter escondido seu celular, por causa de um SMS que chegou depois da meia-noite. "Você sempre arruma um jeito de me decepcionar". Na verdade ele não queria decepcionar ninguém. Queria que todos a seu redor fossem felizes. Talvez assim ele seria feliz. Ou não. Talvez nunca seria feliz. Ou talvez em algum momento, seria feliz para sempre. Não saberia jamais. Felicidade era algo distante. Só queria a chuva. Que lavava seu corpo, que lavava seu rosto. Que o lavava de tudo o que queria esquecer. E cada gota era algo único, cada gota ficava ali para sempre, cada gota faria a diferença. Cada único instante em nossa vida faz a diferença. Vivemos apenas uma sucessão de acontecimentos, nos perturbando e chacoalhando e mudando e destruindo a cada único instante. E o quão mais feliz é a vida antes de nascermos, flutuando em um molhado útero por nove meses? E o quão mais triste é a vida depois que nascemos, e crescemos, e andamos pela chuva em uma sexta-feira sem ter o que fazer?


Hate
John não prestou atenção em nenhum dos sons que se faziam ouvir, exceto o som da catraca do refeitório girando enquanto ele entrava. Pegou uma bandeja, pegou comida, tudo normal como sempre. Menos ele. Estava mal. Passou toda a sexta sem comer, vivendo apenas à base do maço de Lucky Strike Nites que comprou no posto e de uma quantidade arbitrariamente grande de cerveja que tinha em casa – para emergências. Ele pensava que a cerveja aumentaria sua felicidade, ou a preservaria, ou qualquer coisa assim. Mas estava com fome, depois disso. E um picadinho servido no refeitório da faculdade nunca lhe pareceu tão suculento. Sentou sozinho, não queria ouvir vozes. E as pessoas que riam no outro canto da mesa lhe incomodavam cada vez mais. E por algum motivo, John achou que riam dele. E talvez riam dele mesmo, mas isso é algo que nunca saberemos. E John estava desesperado. Não mostrava isso, mas estava. A cada pouquinho de comida que colocava na boca, mastigava e olhava para eles. Eles apenas olhavam de volta e riam. E tudo estava confuso, e a cerveja que ele tinha tomado de manhã – "evite a ressaca, mantenha-se bêbado" – nublava tudo mais e mais. E sua cabeça girava, lembranças sobre ela não paravam de surgir, e ele queria parar, não podia parar, e se levantou. Se levantou, pegou a faca com que cortava seu almoço picadinho. E enfiou essa faca no pescoço daquele que parecia rir mais. Não sabia porque fez isso, não queria fazer isso, não ia querer fazer isso em qualquer dia normal de sua vida. Mas foi o que fez. Porque aquele não era um dia normal. Olhou por um breve instante para o cara que ria mais, e que agora sangrava, todos olharam para ele mas ninguém fez nada, e então ele saiu dali. Caminhando lentamente enquanto ninguém fazia nada. Provavelmente poucos ali perceberam. Ninguém se importa mais com estranhos, hoje em dia. John saiu do refeitório, e o único barulho que ouviu foi o da catraca girando. O chamaram, e ele correu para fora.


(Sounds of Silence)
Parecia um dia normal, até depois do almoço os dois sentarem e ela dizer que queria um tempo. Mas um tempo nunca era só um tempo. E foi estranho, porque depois disso os dois se beijaram inúmeras vezes, sem parar, e era quarta-feira, e não fazia sentido mais nada. Mas ele só queria ela. E se desesperava, porque sabia que no momento que cruzasse o portão da casa dela, tudo ia acabar. Ele não queria que acabasse, ele precisava continuar. Ela o fazia feliz. Pelo menos o que ele achava. E naquele silêncio, os dois no sofá, os dois chorando, ela fazendo algo que claramente não queria, mas precisava. Ali ela não o fazia feliz. Ali ela o quebrava em milhões de pedacinhos e os jogava pela janela e chorava e dizia que não queria mais vê-los. Então ele tirou seu colar, um objeto simbólico importante em sua vida, e o deu para ela. "Cuide bem disso, tem espíritos", foi a fala que quebrou o silêncio. E o espírito que John deu para sua namorada (agora ex-namorada) cuidar foi o que a manteve preso a ele. Pelo menos era nisso que ele acreditava. Seu velho costume de acreditar em qualquer groselha e moldar a própria realidade em torno disso. Pelo menos doze horas depois ele estava dormindo com ela.


Run Away
John gostava de correr. Mas naquela situação, corria sem saber o porquê. Como se seu puro instinto tivesse tomado conta de sua vida nos últimos minutos. Exatamente assim. Ele tinha parado de pensar, apenas seguia o fluxo das coisas. E aquilo não dava certo. Não daria certo. Mas deu certo. Conseguiu chegar em casa. Seu carro, na reserva de gasolina. Há dias. Ele não sabia como tinha chegado em casa, apenas que estava em casa. E o sono o exauriu, na hora. Enfiar uma faca no pescoço de alguém era um tanto cansativo, se levarmos em consideração o que John fazia em seus últimos dias. Nada. Não fazia nada. Nada. Nada que mereça o título de "eu faço isso". Limpava a casa, cuidava das contas, fingia que estudava, escrevia. Isso era nada. Culpa da agricultura. Mas vivia bem. Vivia bem, sem nada. Até a hora em que teve que correr. Iriam pegá-lo, e o que fariam? John estava de boa de querer saber. Além de limpar a casa e cuidar das contas, ele jogava poker. E algo importante no poker é saber quando correr, quando fugir, quando desencanar. Ele tinha fugido de 90% das oportunidades que valiam a pena em sua vida nos últimos meses. E não tinha fugido, tinha pagado, 90% das oportunidades que não valiam a pena. Mas naquela hora corria. E fugia. E não queria ser pego. E queria continuar. E chegou em casa, e dormiu.


Moments Forever Kept
John nunca se esqueceria de seu primeiro beijo, tampouco do dia em que ganhou na loteria, – 200 dólares, 17 anos – ou do primeiro porre, ou do dia em que finalmente ficou com ela. Depois de dez dias em que a conhecia, depois de dois dias que passou com ela. E foi simplesmente incrível. Simplesmente incrível. Sentar sob as estrelas, olhar as estrelas, nomear as estrelas – McNífico Bacon, a constelação que os dois criaram. John adorava o céu. Jamais se esqueceria do céu laranja em que esteve sozinho fumando no telhado, ou do céu estrelado em que estava com ela. Estrelas ou lua?, estrelas. Muitas pequenas luzes são mais do que uma só grande luz. Mas é melhor queimar de uma vez do que apagar as poucos. Assim disse Kurt Cobain. "Can you hear the spheres singing song off station to station?", unicórnio primogênito, pornografia leve e pesada. Algumas coisas John nunca esqueceria. Alguns momentos ele guardaria para sempre. Outros, ele não se lembraria diretamente, mas fariam toda a diferença em sua vida. Como fazem em todas nossas vidas.


Rule Number Three
A regra três diz: menos é mais. Tendemos a ser minimalistas? O ser humano tende a reduzir e simplificar tudo? John era assim. E por abusar desse princípio, não sabia mais o que fazer. Porque tinha perdido. Tinha esquecido dela, tinha esquecido de tudo, e aí só restava beber. Ela lhe fazia feliz; ela também. E não tinha escolha. Queria tudo. Mas tudo é algo que não se quer, simplesmente porque nunca se terá. E isso é ilusão. Nada convincente, apenas desesperadora. Um leve desespero que leva todos nós daqui. E o desespero é o que tomava conta de John. Porque ele finalmente tinha lembrado do aniversário dela. E não tinha escolha. Não tinha o que fazer. Apenas olhava para seu estoque arbitrariamente grande de cerveja, olhava, olhava, até o tomar. E John adorava beber sozinho. Sempre ligava o som, uma música qualquer, mas uma música especial. Escolhida entre o conjunto de músicas especiais que ele tinha. Que incluíam aquelas que serviam para os momentos tristes. Triste, é o que ele estava. Por mais que tivesse acordado feliz e sorridente, olhando para aqueles olhos brilhantes, sorrindo porque finalmente tinha acordado com ela. Mas triste. Porque não tinha acordado com ela. Ela lhe fazia falta. Não a via há muito tempo. Algo como 24 horas. Era muito tempo para ele, que antes de terminar, a via todos os dias. E 24 horas depois, estaria entrando no refeitório.


Sun
O sol sorria. E ela também, com seu sorriso perfeito. Tudo radiava, tudo significava felicidade. Os dois andavam por aí. Aquele tipo de dia em que não se quer mais nada além de andar por aí, e o sol está lindo, e queremos apenas estar com alguém. E ali estava John, com ela. Não queria mais nada, além de talvez acariciar seu cabelo perfeito a cada dez minutos. Dez minutos. Se John tivesse apenas mais dez minutos de vida, ia querer gastar todos com ela. Dez minutos com seu cabelo, dez minutos vendo aquele sorriso perfeito. E talvez um beijo. O quanto valia um beijo? Um beijo dela era menos do que vinte cigarros? Nunca John saberia, não é algo que se compare. Coisas não são comparáveis. Nada se compara. Cada única pessoa sempre irá preferir algo, e outra pessoa preferirá mais um outro algo.E em cada relacionamento, sempre uma pessoa irá gostar mais daquilo que a outra. Por isso tudo tende a acabar. E John sentia que aquilo não ia acabar nunca. "E foram felizes para sempre". Ele queria ser feliz pra sempre. Então, um barulho se fez ouvir. Um barulho insuportável. E então, John acordou.


Goodbye, I'm Going Home/Waking Up (Hidden Track)
Tchau, I have to go now. Mantra do carnaval. Algo que John nunca esqueceria. Como nunca esqueceria de seus últimos dias. Lembramos de fragmentos de nossa vida, sempre. 24 horas atrás, andava pela cidade na chuva. 72 horas atrás, estava com ela. Foi absurdo, foi incrível, foi indescritível. E ali estava ele. Tinha acabado de acordar, sentindo que era a única pessoa do mundo que acordava naquela hora. Quem acorda de madrugada em um sábado? Quem mata alguém em um refeitório da faculdade? Quem sai de sua casa, madrugada de sábado, e se depara com pessoas querendo vingança? John. John não se lembra de como morreu, foi tudo muito rápido. E quem se lembra de como morreu? Quem já ouviu alguma história sobre morrer? As pessoas que morreram não estão mais aqui. Nascemos para morrer. Por quê?

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Algo que John sempre lembraria é de como acordou naquela noite de sábado. Tinha sonhado com ela, foi um sonho bom, foi o melhor sonho de todos. Ele queria ver ela. Ele só queria ver ela. Mas, quando algo lhe bateu à porta, ele não foi ver ela. Ele foi ver ela. Ela acabou com ele, ele teve o que sempre quis. Ele a teve. E a ela também. Era só o que ele pensava ao acordar naquele momento, naquela voz desafinada, naqueles cabelos que eram o melhor de todos de se passar a mão, ever. Ele não pensava nos olhos brilhantes. Só nos cabelos perfeitos, e um pouquinho na voz desafinada. E no quanto tinha sido displicente em não ligar para ela, não vê-la, nem ao mesmo ligar para ela. No dia do aniversário dela. Ele nunca se perdoaria. E nem teria tempo para isso.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

- Vou embora. [2]

- Porquê eu não me vejo tendo nenhum tipo de futuro com você, Mark?
- E porque simplesmente não viver esse momento de agora?
- Eu não tenho garantias. De nada. E você a cada dia se torna algo um pouco mais longe do que eu esperava.
Ele deu uma longa tragada em seu cigarro. A última. Lucky Strike Nites queimava cada vez mais rápido nas mãos dele. Que parecia viver cada dia mais tenso.
- Eu poderia fazer a mesma pergunta de novo, e provavelmente você não a responderia.
Claro que ela não responderia. Tudo o que fez foi olhar, andar até a cozinha do pequeno apartamento, e pegar um copo de água. Ao voltar, perguntou:
- Quando você deixou de ser o que eu queria?
Mark começava a ficar magoado. Ela só se tornava mais agressiva. E então ele tentou pensar no que ela estava pensando. Não tinha idéia.
- Me desculpe se eu não sou ou nunca fui o suficiente pra você. - foi tudo o que conseguiu responder, secamente.
Os olhos dela começaram a brilhar. Não de alegria, mas de lágrimas. Alice de novo caminhou, desta vez para a sacada. Ela adorava sentar ali no colo dele, na grande poltrona, e observar as infinitas estrelas do céu de fevereiro de Los Angeles; o melhor mês de toda a relação dos dois. Sem dúvida. E já era agosto, e aqueles dias pareciam muito mais distantes do que próximos.
- Eu voltei para conversar. Porque isso não está acontecendo?
- Pergunte a si mesma, Alice.
Um minuto de silêncio precedia e sucedia cada fala entre os dois. Um minuto do tipo que parece oito, ou uma eternidade.

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Qualquer relacionamento amoroso entre duas pessoas sempre esbarra num primeiro problema, que é simplesmente básico, imediato e inevitável. A qualquer momento, alguma das duas partes da relação vai gostar e depender mais da relação do que seu par. Essa diferença pode ser pequena, ou acentuada; aí depende. E Mark via de forma clara que o dependente da vez era ele. Que tinha se acostumado de tal forma à presença dela ali, os dois no mínimo fazendo companhia um para o outro no sono; ele nunca mais tinha concebido uma vida longe dela, em nenhum momento em que os dois discutiram. Nunca.

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Alice uma vez tinha lido em algum lugar, algo do tipo "toda relação amorosa é doentia: uma pessoa sempre é explorada sentimentalmente, e outra é exploradora"; ou coisa assim. E explorada era exatamente como ela se sentia. Ficar com Mark era algo que lhe consumia, mas que ela não conseguiria passar sem, de jeito nenhum. E sim, ele um certo fardo, no sentido de não oferecer nenhum mínimo porto seguro para ela. Mas se fosse perguntado a Alice "calmaria ou tempestade?", ela não teria resposta.