- Porquê eu não me vejo tendo nenhum tipo de futuro com você, Mark?
- E porque simplesmente não viver esse momento de agora?
- Eu não tenho garantias. De nada. E você a cada dia se torna algo um pouco mais longe do que eu esperava.
Ele deu uma longa tragada em seu cigarro. A última. Lucky Strike Nites queimava cada vez mais rápido nas mãos dele. Que parecia viver cada dia mais tenso.
- Eu poderia fazer a mesma pergunta de novo, e provavelmente você não a responderia.
Claro que ela não responderia. Tudo o que fez foi olhar, andar até a cozinha do pequeno apartamento, e pegar um copo de água. Ao voltar, perguntou:
- Quando você deixou de ser o que eu queria?
Mark começava a ficar magoado. Ela só se tornava mais agressiva. E então ele tentou pensar no que ela estava pensando. Não tinha idéia.
- Me desculpe se eu não sou ou nunca fui o suficiente pra você. - foi tudo o que conseguiu responder, secamente.
Os olhos dela começaram a brilhar. Não de alegria, mas de lágrimas. Alice de novo caminhou, desta vez para a sacada. Ela adorava sentar ali no colo dele, na grande poltrona, e observar as infinitas estrelas do céu de fevereiro de Los Angeles; o melhor mês de toda a relação dos dois. Sem dúvida. E já era agosto, e aqueles dias pareciam muito mais distantes do que próximos.
- Eu voltei para conversar. Porque isso não está acontecendo?
- Pergunte a si mesma, Alice.
Um minuto de silêncio precedia e sucedia cada fala entre os dois. Um minuto do tipo que parece oito, ou uma eternidade.
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Qualquer relacionamento amoroso entre duas pessoas sempre esbarra num primeiro problema, que é simplesmente básico, imediato e inevitável. A qualquer momento, alguma das duas partes da relação vai gostar e depender mais da relação do que seu par. Essa diferença pode ser pequena, ou acentuada; aí depende. E Mark via de forma clara que o dependente da vez era ele. Que tinha se acostumado de tal forma à presença dela ali, os dois no mínimo fazendo companhia um para o outro no sono; ele nunca mais tinha concebido uma vida longe dela, em nenhum momento em que os dois discutiram. Nunca.
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Alice uma vez tinha lido em algum lugar, algo do tipo "toda relação amorosa é doentia: uma pessoa sempre é explorada sentimentalmente, e outra é exploradora"; ou coisa assim. E explorada era exatamente como ela se sentia. Ficar com Mark era algo que lhe consumia, mas que ela não conseguiria passar sem, de jeito nenhum. E sim, ele um certo fardo, no sentido de não oferecer nenhum mínimo porto seguro para ela. Mas se fosse perguntado a Alice "calmaria ou tempestade?", ela não teria resposta.
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