Prólogo "O falcão uivou, olhou para o pôr-do-sol por cima do telhado, pegou uma breja na conta da atlética, entrou na piscina com as gostosas, e simplesmente sorriu por estar ali." Sorriu por simplesmente estar ali. Morávamos em onze; a verdade é que nunca estivemos os específicos onze dentro da casa em um mesmo momento. Mas não precisávamos daquilo. E andar por ali no meio da madrugada, ver ao mesmo tempo as latinhas vazias, a piscina cheia vazia, o toldo branco e o pequeno sofá que colocamos ali; ver o que era durante a noite o império que criamos a cada único e novo dia. Cada um de nós era feliz, se fez feliz, foi feliz, só queria ser feliz. Eu só queria ser feliz. E ela me odiava. Ela odiava os onze, ela odiava os falcões, ela odiava aquela casa, a famosa melhor de todas; ela odiava tudo isso porque me mantinha longe dela. Era algo que me arrastava para longe dela. E, em um momento, eu não sabia que estava fazendo uma escolha, eu tinha que fazer uma escolha, eu inconscientemente fiz uma escolha; entre amor e amizade, escolhi amizade. Minhas amizades. Minhas latas de cerveja de um real. Eu sentiria falta dela para sempre, eu lembraria dela para sempre, uma vez a cada dia, um pouquinho a cada dia, aquele sorriso perfeito. A cada dia. E a cada dia eu iria até o fundo olhar a piscina e as árvores e o sofá e o toldo branco; aquele império que cada um de nós onze construiu para si só, um lugar fora do tempo, um lugar maior do que o tempo. Só o que precisávamos, mais do que poderíamos querer. E não sei se fiz a escolha certa ao, naquele dia, escolher amizade ao invés de amor. Só sei que não fiz a escolha errada.
Parte um: Sala de sofás, e videogameBomberman, Need for Speed, Campeonato Brasileiro, Rock n' Roll Racing, Rock n' Roll, Rock. Eu acordava de manhã muito cedo, às vezes; nas outras, acordava de manhã depois do meio-dia. As outras eram bem mais freqüentes do que aquelas. É que eu iria lembrar daquelas para sempre. Cada única ocasião em que acordei cedo, cada dia daqueles foi diferente. Rock, samba, metal, new age. Agora olho para as paredes pintadas da cozinha. Mas falemos da sala dos sofás, e deixemos a cozinha para outra ocasião. Há o anti-calote, me lembrando do quanto devo para as pessoas. Às vezes, só devia para as pessoas. E raramente, tinha a receber delas. O sistema de crédito que criamos era algo totalmente funcional, algo que permitia que rolês acontecessem, rolês que não aconteceriam se pessoas não tivessem dinheiro vivo na hora. Assim como disse uma vez para o gaivota, a breja da atlética que podia ser marcada em uma lista e custava um real era a coisa que começava o rolê. Inúmeros rolês começaram por causa dessa breja. Não me lembrarei de todos eles, claro, estava bêbado, mas me lembrarei para sempre deles. Lembrarei que sorria, e falava, e escutava. Via os outros sorrirem, via os outros falarem. Os outros podiam ser agregados ou moradores. Não importa, eram parte essencial da minha vida. Parte essencial, seja na sala jogando videogame, ou no fundo jogando conversa fora, ou na minha janela olhando enquanto liam aquelas coisas que escrevi. Coisas como essa que se lê agora. Coisas sobre coisas que vou guardar, assim como vou guardar um monte de coisas, assim como vou guardar minha vida naquela casa, e meus amigos, para sempre.
Parte dois: Sobre os falcõesSei que foi algo que criei, mas não me lembro exatamente como. Uma resposta aos condores, uma tentativa e vontade de finalmente pertencer a um grupo. Talvez não um grupo, mas uma elite. Se bem que todo grupo é uma elite, todo grupo automaticamente exclui os que estão fora do grupo – a não ser que esses fora sejam candidatos ao grupo. Mas o grupo dos falcões era seleto. E agora, nesse momento em que escrevo esse diário, ele tinha quatro integrantes. Talvez cinco. O falcão da barba ruiva, o falcão da garra ferida, o falcão uivante, o falcão verde. E o falcão filhote. Sobre cada um deles: o barba ruiva é este que vos fala. O garra ferida é aquele que, nos dias que acordo cedo já citados, está jogando videogame na sala dos sofás. Ou, quando ele não está, quem está é um condor. Talvez eu fale sobre ele mais tarde. E o garra ferida é uma pessoa que tenho em alta conta até o final da minha vida. Todos os falcões, na verdade. É que quando se escolhe um grupo, os escolhidos por esse grupo tendem a retribuir essa escolha, e talvez se tornam seus melhores amigos. Não é sempre que isso acontece. Mas o falcão da garra ferida era um deles, o filhote também. O falcão uivante sempre podia ser encontrado jogando Winning Eleven, e assim como o da garra verde, era o cara que trazia a massa. A massa tornava pessoas felizes. Talvez nem tanto como as brejas da atlética, talvez mais, talvez a massa tornava as pessoas mais felizes, e a breja tornava mais pessoas felizes. Volte duas linhas, e leia de novo. Assim os dias passavam, à base de breja, massa, e comida; a comida sempre colocada no anti-calote. Esses eram os três recursos que alimentavam nosso império. Talvez houvesse um quarto recurso, alegria, que sempre era open bar; mas talvez alegria seja um resultado, e não um recurso. Talvez alegria seja um objetivo. O próprio objetivo da vida em si. E algo que teríamos open bar para sempre, naquela casa.
Parte três: A janela do meu quarto Dormir com a janela aberta era sempre um risco, de se chover de noite e acordar com o rosto molhado, ou de se acordar com o sol na cara, bem cedo. Nos dias em que acordava com o sol na cara, ia para a sala dos sofás e ali tudo começava. Nos outros, só voltava para meu quarto para escrever meu diário, ouvir uma música, ou sentar na janela. Uma coisa não exclui a outra. Na verdade, só escrevia ouvindo música e só sentava na janela se pudesse ler um livro e ouvir uma música. E a janela era o melhor lugar do mundo, a janela é o melhor lugar do mundo, é a minha casa, representa minha casa. O império que nós onze criamos, o ninho dos falcões. Decorei com exatidão todas as coisas como eu deixei. E a cada momento mudavam aquilo, mudavam minha vida. E eu lembrava daquilo, exatamente, por mais que tendesse a esquecer tudo. Talvez porque eu queria esquecer, talvez porque eu precisava, ou porque teimava. A maioria das coisas não era algo agradável. Sobre todas as coisas que eu não quero lembrar, diria que foram tempos difíceis. Mas todos o são. Todos nós vivemos apenas tempos difíceis. Aquela velha história sobre cada um de nós estar perdendo o tempo todo, o desejo de sobreviver, mais do que um desejo, uma necessidade, aquilo que nos leva a navegar pelo mar da vida. Com ondas batendo a cada instante, fazendo doer, podemos quebrar um braço numa onda um dia, como um falcão já quebrou. Mas, no meio desses tempos difíceis, temos algo para nos acalmar e dar a força necessária para seguir em frente. Os momentos bons. Vivemos tempos difíceis entremeados por momentos bons. Como aqueles em que sentei na janela do meu quarto, li um livro, tomei uma breja e fumei um cigarro. Os belos momentos que vivi naquela janela, a janela que representa minha casa para mim, e os tempos belos em que vivi naquela casa.
Parte quatro: Chuva de verão Olhávamos para o videogame, depois para a chuva. Eu e o garra ferida conversamos, sentados na conservadora da atlética, a mesma atlética que nos trazia breja, por alguns minutos. Chovia, aquela chuva de verão. E em nossa cidade há o verão eterno, nossa cidade é o caldeirão do inferno, nosso ninho de falcões é mais quente do qualquer um que jamais se teve notícia. E encontramos mais um filhote de falcão, perdido no ninho, perdido em sua própria vida e seus próprios pensamentos. E me vi nesse filhote. Sempre vemos a nós mesmos em nossos filhotes. Vemos a nós mesmos em qualquer coisa que façamos. E sorri. Sempre sorri ali. E sorri mais ainda quando vi o arco-íris no céu. O primeiro arco-íris que vi naquela cidade, em dois anos. E o primeiro que vi naquela casa, em dois meses. Longos dois meses, belos dois meses, dois meses de piscina e gostosas, e em que estive longe dela mais do que nunca. Exceto por curtos dois dias. E então estraguei tudo, e tudo acabou, e nem a chuva de verão resolveria aquilo. Pelo menos ela me consolou, por aqueles minutos em que estive com garra ferida e o segundo filhote e quem mais estivesse ali olhando o arco-íris. Que na verdade podia se chamar arco de chuva, ou rainbow. Mas traduções são feitas por pessoas, e cada um sabe o que faz. E eu sei que sinto sua falta. E nos acostumamos a usar o sua para o você, quando na verdade o sua pertence a ele/ela, e deveríamos falar tu. Mas eu só consigo falar eu. Como ela disse, eu só consigo pensar em mim mesmo. E digo que, além de pensar em mim mesmo, também penso na chuva de verão e no arco de chuva que ela trouxe. Só nisso. Preciso pensar em algo mais? Preciso pensar em algo mais.
Parte cinco: Aquele rolê até o centro Demos aquele rolê por um motivo. Fazemos cada rolê por um motivo. Eu não tinha um motivo para minha vida, talvez não queria um motivo para minha vida. E viver sem um motivo era bem mais legal. Mas não sei. Nunca vivi minha vida com um motivo. E, naquele momento, em que quis estar em algum lugar, finalmente o tive. Estávamos eu, Zé, garra ferida e primeiro filhote. Berrando para as pessoas que passavam na rua, e rindo daquilo. Como ríamos daquilo. Berrar para as pessoas era muito engraçado. Haviam muitas coisas muito engraçadas que aconteciam o tempo todo. Rir leva à alegria, alegria é tudo o que queremos. Né? Realização, orgulho, amor, dinheiro, nada vale mais do que alegria. Talvez. Provavelmente. Realização é algo que nunca tive. Orgulho, nos últimos tempos, tinha tido por causa de rolês que armei. Mas... quem arma o rolê, quem faz o rolê, é quem está nele. A nossa vida, quem arma é a gente; quem faz é quem está nela. Mesmo que você esteja completamente sozinho em algum ponto do tempo, alguém provavelmente vai vir lhe procurar. Amor... tinha e perdi. Parece que joguei fora, me convenci de que joguei fora, sempre vão me dizer que joguei fora, ela vai estar certa para sempre de que o joguei fora. Mas no fundo mesmo, foi sem querer. Se houve algo que quis manter para sempre, foi o amor. O nosso amor. Mas, como dizem, não adianta chorar o leite derramado. Por mais que esse rolê tenha sido eu que armei, quem o fez foi ela. Aquele rolê até o centro fui eu que armei. Custou sete reais. E falando do dinheiro, ao contrário do amor, nunca tive. Mas, assim como o amor, joguei fora; ou perdi, ou qualquer coisa. Na verdade gastei bem. Sete reais para berrar para pessoas na rua e dar risada e ter um pouco de alegria com meus amigos é um dinheiro bem gasto. E dinheiro é besteira, amor é besteira; tudo o que eu preciso é de amizade e carinho. Sobre carinho, falarei depois.
Parte seis: O setor chambinho Não sei como. Mais do que não sei como, não sei aonde. Mais do que não sei aonde, não sei por quê. Foi treta, sim, nas duas ocasiões em que isso aconteceu foi treta. Numa delas, saí do setor chambinho sorrindo. Na outra, não sorri, mas também não chorei; nem uma lágrima, mas talvez porque todas já tinham ido embora em um dia anterior em que sentei em meu quarto e ouvi uma música e olhei para a janela. Mas o setor chambinho era divertido, dormia lá às vezes, e parecia uma extensão do meu quarto. Vezes em que estava bêbado demais para ter uma escolha sobre aonde dormir, e na verdade não dormia; desmaiava. E acabei de vê-la, não a mesma, mas aquela que ligeiramente e com seu jeito único arrastava lentamente para a direção que quisesse o rumo de minha vida. E ela acabou de ir embora, e seus olhos brilhavam, e senti que não deu a mínima para mim. Eu tendia a ser o cara do tipo que se fala a respeito "ele não existe", e assim, eu continuava, só existindo e contrariando quem disse isso e nunca vivendo de fato, só existindo. Mas poderiam eles estar errados ao dizer que eu não existia? Eu tinha uma vida, e a adorava. Por mais que fosse deficiente de inúmeras coisas que existem na vida de pessoas normais que chamam sua vida de vida. E eu só queria dizer que você é linda. E, que naquele dia que saí do setor chambinho, sorri. Nunca sorri mais do que algumas vezes em particular em que estive com você, mas sorri mais do que sorria na média dos momentos em que estivemos juntos. Você me trouxe sorrisos, mas trouxe também muitos momentos difíceis e poucas lágrimas. E eu continuo me desculpando, inconscientemente, mas quero parar, e não consigo. Quero parar, mas não consigo. E naquela vez em que saí do setor chambinho, não estava com você. E mesmo assim sorri, um monte. E sobre carinho, acho que vou ter que falar sobre carinho duas vezes. Se bem que na vez em que houve carinho no setor chambinho, não era carinho, apenas... vontade.
Parte sete: O fundo, e a piscina, e as gostosas
O ser é um estar constante, e o estar é um ser momentâneo. Ambos são "to be". Eu não sabia se era no fundo na piscina com as gostosas, ou se estava. Eu não sabia por quanto tempo aquilo ia durar, ou seja, não saberia se estaria ali depois, ou em qualquer momento. Só sabia que, em alguns momentos depois, estaria ali. Eu não queria que aquilo acabasse nunca, eu achava, ou sabia, que aquilo não ia acabar nunca. Era o nosso império, era o que criamos, um morador e cada morador com seu tijolinho para a parede que segurava o hall of fame. Que está infinitamente distante da sala que não era a sala dos sofás, e sempre que eu ia pegar uma breja na conta da atlética e que estava lá no fundo, eu corria. E ria, enquanto corria. E ria, sempre... especialmente no fundo com a piscina e as gostosas, ou talvez ali eu sorria. Não, acho que não. Sorrir, era quando estava com ela, ou em momentos cada vez mais raros conforme o tempo passava e ficávamos mais longe. Tirando aquela noite no escritório, mas já disse que fica pra depois. E eu ficava mais perto das gostosas que se aglomeravam e enxameavam o redor da piscina, mas nunca estaria perto delas o suficiente. Será que só sorte?, como tudo na vida? Seria destino, ou seria conseqüência do que me tornei e vivi e fui? Fui... feliz. Ao redor da piscina, com as gostosas e o som e a churrasqueira acesa e a televisão ligada passando campeonato brasileiro. Acompanhada daqueles bolões que ninguém nunca ganhou, mas também nunca pagou. E acabei de me lembrar das brejas que nunca vamos pagar, e será que algum dia ganharei alguma coisa na vida? Alguma coisa que não seja uma mera inútil e totalmente e importantemente simbólica medalha do interpsico, e que, pra completar, roubaram de mim?
Parte oito: A boa sorte Disse para o gaivota me dizer boa sorte, como sempre; andei até a casa dela, sentamos na calçada, algo que nunca tínhamos feito, e então conversamos por quatro horas – algo que já tínhamos feito várias vezes, e sempre era bom. E eu pedi um abraço para que pudesse ir embora, e nos abraçamos por umas quatro horas, apertado, um tipo de abraço épico. E falei um tanto de groselha, mas isso é o que sempre faço, e o que estou fazendo exatamente agora; fazer os outros ouvirem groselha, por alguma razão eu acredito nisso e queria que todos entendessem, mas nunca ninguém vai entender 100% disso aqui, ou daquilo, ou de qualquer coisa e groselha que disse. É desesperador; claro. Estava desesperado quando pedi aquele abraço, me senti derreter ou quebrar em milhões de pedacinhos enquanto aquele abraço acontecia, mas pelo menos ela estava ali para me segurar e evitar que me esparramasse pela calçada, ou fosse levado pelo vento das quatro da manhã. E aí, nos beijamos, fui embora, ao chegar em casa joguei videogame por mais quatro horas, conversando com o filhote de falcão. Beijá-la naquela hora foi... não tenho idéia. Um tipo, de sorte... mas não aquela sorte que é só sorte, e ver coisas acontecendo, mas aquela sorte que agrupa e nomeia coisas boas. Acho que esse conceito não foi criado ainda. Então vamos lá: há a sorte, aquela que te faz ganhar na loteria ou no poker ou no bolão de um real do campeonato brasileiro. Há a sorte, aquela que te permite andar pela rua quatro da manhã e não ser assaltado, estuprado, estrupado, estripado, assassinado ou perder o fígado ou as bolas. A invencibilidade. E há a boa sorte, aquele conjunto de momentos bons que podem ser tensíssimos, mas mesmo assim entram no hall of fame, assim como o de ontem. Uma cadeira do hall of fame pertenceria às quatro horas que se passaram ontem enquanto conversávamos, e a outra cadeira pertenceria às quatro horas em que ficamos abraçados e aquele beijo delicioso e do qual eu precisava mais do que tudo e que aconteceu. A parte importante foi quando ouvi "seja resiliente, e você pode contar com as pessoas, mas não dependa delas", isso foi o que gravei. Não, isso é a impressão que ficou. A parte realmente importante foi que conversamos, e tudo o que se passa nessa cabeça da gente foi pelo menos um tantinho esclarecido, mas... um tantinho bem bom. E eu disse muita groselha, e é o que faço quando fico bêbado, e nos últimos dias isso tem sido uma constante, aquela velha história do começo da parte sete. Foi bom, naquela noite, conversarmos. Foi importante, foi o que importou, contrariando o que dizem, que futebol é o que importa. Meio que futebol e o bolão representam amizade, e ontem amor. Aquelas duas coisas que tive que escolher entre. Aquela noite não representou amor, na verdade, e sim algo como uma tentativa desesperada de duas pessoas ficarem melhores e tornarem tudo melhores entre si, porque um dia houve amor, mas foi jogado fora. Por mim, eu sei. E nunca acredite em te amo pra sempre, exceto ontem. E aquele beijo, foi 50% carinho, 25 desespero, e 25 licença poética. Como aquela noite teve licença poética, e groselha, e... boa sorte. O gaivota acertou.
Parte nove: O setor lan house A casa tinha dois computadores; um era do segundo filhote, e o outro de Zé. E, como eu dividia quarto com Zé, ele também era meu. E eu não lembro de um dia ter estado em algum lugar do meu quarto que não fosse minha cama, a janela, ou a cadeira em frente ao computador. E minha cama não importa para muita coisa, não aconteceu nunca nada lá além de sono, e momentos que se passam dormindo não são momentos conscientes, ou seja, não importam. Sobre a janela, já supracitada. E sobre o computador... falar sobre ele é como uma meta-história, por ser aonde estou escrevendo agora, mas não importa. E além desses três lugares, lembro de duas ocasiões. O dia depois daquela festa, que foi marcada por ser a primeira festa em que estava solteiro; e consegui não pensar nela por um bom tempo. E rimos, foi muito engraçado estar um zilhão de pessoas no meu quarto, e todas ainda meio bêbadas, divertimo-nos. E a outra vez, aquela dia que tudo acabou e começou de novo no mesmo dia, pareceu que ia durar, mas foi só por um pouco tempo, e estivemos sentados bebendo cerveja e comendo queijo, eu, garra ferida, o condor, e sua condora. E o condor estava mais feliz do que nunca com sua condora, via-a pouco demais, menos do que queria. E eu sentia falta de minha falcoa, e sorte que meus companheiros de rapina que ficaram na janela comigo aquele dia conseguiram me salvar, salvar de mim mesmo. Porque em outra vez que minha falcoa deixou meu ninho, havia a já lendária e hoje proibida breja da atlética na geladeira, e aí que eu não saí de meu quarto, mesmo. Só para ir até a geladeira. Fiquei na frente do computador, um bom tempo. E o que se lê agora é o report que ninguém me pediu mas eu precisei fazer. Leia com atenção, porque o que eu digo nunca será muito inteligível, pelo menos enquanto eu sentir que ninguém me entende. E contemos uma história, devaneios são legais às vezes, falar groselha resolve a tensão, mas que a história comece. Por mais que termine e comece de novo, e termine, e nunca tenha fim, ou começo. Se bem que o que importa não é o fim ou o começo, e sim o meio. Sinto isso tanto para histórias quanto sinto em relação a ela.